Como em uma sucessão de episódios de um seriado de TV, Brasília sempre surpreende. Se até então o assunto era a descaracterização do projeto de lei de iniciativa popular que instituía as Dez Medidas contra a Corrupção, ontem um novo tema começou a tomar conta do noticiário e das conversas. Isso porque o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu abrir uma ação penal e transformar em réu o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), sob a acusação de desvio de dinheiro público. E realmente foi uma bomba. O senador já foi alvo de uma série de denúncias, inclusive é investigado em 11 inquéritos, mas nunca havia sido içado à condição de réu.
O irônico de tudo isso é que se trata justamente do político que criou o destaque para punir juízes e promotores por abuso de autoridade, a proposta que ofuscou as Dez Medidas contra a Corrupção. Alguém que quer demonstrar ter um espírito democrático ao extremo, na verdade, está se preocupando com o próprio futuro e escapar de tudo o que for possível. Pelo jeito não conseguirá, pois o STF está fechando o cerco. Logo, logo é capaz de ter o mesmo fim do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Se realmente for comprovado que há crime contra o erário, que Renan Calheiros seja punido de maneira verdadeiramente exemplar.
Ele é mestre em realizar manobras. Antes desse episódio do projeto de lei contra agentes do Judiciário e do Ministério Público que possam abusar de suas autoridades, ele já havia livrado a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) de uma punição pior no processo de impeachment. No momento final, em julgamento no Senado, ele fatiou a votação e a petista conseguiu manter intactos seus direitos políticos, apesar de ter perdido o mandato. Resta saber qual será a carta na manga nos próximos dias e como se defenderá na ação penal da qual agora é réu. Algo é fato: diante do que aconteceu nesta semana quanto às Dez Medidas contra a Corrupção e de todo o histórico de vida política e escândalos, Renan Calheiros terá a maior parte da opinião pública ainda mais contra ele.
Atualmente, a sensação de muita gente é de frustração em relação ao projeto popular retalhado. Se lá havia pontos dos quais muitos parlamentares não eram a favor, por que nunca tinham pensado em algo antes e só neste momento? O parlamento existe para representar a população, mas quando seus personagens tardam a atender a sociedade, ela se move para garantir a concretização de seus anseios. O mesmo sentimento ocorre em relação ao presidente do Senado. O que a maioria desejaria a ele? Que a Justiça seja feita.