O que milhões de brasileiros esperam com o desenvolvimento e a continuidade da força-tarefa da Lava Jato, com atuação firme do Ministério Público e da Polícia Federal, é que os casos de corrupção sejam varridos do País e que os responsáveis sejam exemplarmente punidos de modo a fazer com que se iniba qualquer ato semelhante. Mas seria ingênuo imaginar que isso venha a acontecer. Na verdade, seria também se supuséssemos que vai mudar para sempre o Brasil.
Claro, foi um marco, um recado bem alto aos agentes públicos e empresas privadas mal intencionados, que não medem esforços para conseguirem o que querem, mas daí a pensar que nada mais será como antes e que daqui para frente tudo será diferente e modelo de lugar honesto no mundo é também uma grande ilusão. É melhor nem criar essa expectativa, pois a frustração seria enorme.
É isso que o procurador Deltan Dallagnol, que coordena a força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, quis deixar claro ontem, em evento da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro, onde se debate justamente o projeto das Dez Medidas contra a Corrupção, de iniciativa popular e encabeçada pelo Ministério Público. O documento representa um grito da sociedade contra os desmandos no Brasil, mas sua finalidade e seus tópicos, mais especificamente em relação à criminalização da prática de "caixa 2", poderão ser aviltados com uma manobra no Congresso Nacional para anistiar aqueles que assim praticaram até então.
"A Lava Jato é mais um caso criminal, como foi o mensalão. Ela vai punir as pessoas e recuperar parte do dinheiro", afirmou. Ou seja, o foco é punir e recuperar o erário afanado, porém casos assim vão continuar a surgir. E o trato que muitos deputados já estão dando a essa vontade popular é um exemplo. Querem transformar uma ferramenta contra a corrupção em algo que proteja os corrutos. Se entre os nossos representantes continuarmos tendo pessoas que queiram apenas legislar em causa própria, vai ser difícil consertar o Brasil e colocá-lo nos trilhos com medidas que doam a quem doer.
O que se quer é que aquilo que se iniciou com o juiz federal Sério Moro, com o Ministério Público e com a Polícia Federal seja uma regra e sirva de exemplo. É essa a transformação necessária, não querer que uma operação seja a solução para todos os problemas nacionais. Enquanto a sociedade não se impor e não dar o direcionamento, ou seja, enquanto a classe política não temer a sociedade de verdade, dificilmente tudo isso terá continuidade.