O Palácio do Planalto está tenso com a prisão preventiva do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB), decretada ontem pelo juiz Sério Moro após o Ministério Público Federal (MPF) alegar risco à investigação na operação Lava Jato e possibilidade de fuga. Apesar da prisão não ter sido surpresa a ninguém - nem mesmo para Cunha, que não reagiu e já tinha até malas prontas -, o confinamento por tempo indeterminado do parlamentar meteu medo na cúpula do atual governo de Michel Temer (PMDB).
O ex-presidente da Câmara sempre foi incisivo ao afirmar que não faria um acordo com a Justiça de delação premiada na tentativa de reduzir possíveis penas aplicadas contra ele, caso seja condenado. Ele, inclusive, segue afirmando com todas as letras que é inocente e nega as acusações já feitas. Mesmo depois de ser cassado, ele voltou a declarar sua posição contrária à ideia de fazer uma delação, já que, segundo ele, apenas criminosos recorrem a esta alternativa. Mesmo assim, a delação premiada parece ser tudo que resta a Cunha. E não será surpresa se, caso ele volte atrás da decisão e aceite o acordo de delação, a atual administração seja diretamente abalada, já que o possível delator tem informações com potencial para derrubar o atual governo. O ex-presidente da Câmara sabe muito e tem relação muito próxima com o Palácio do Planalto e conhece toda a sujeira que ainda está debaixo do tapete.
Cunha teria ajudado cerca de 200 parlamentares a captarem recursos para suas campanhas, mostrando que, além de corrupto, ele trabalha também como corruptor, e isso vai tirar o sono de muitos parlamentares que ocupam o poder atualmente. Inelegível até 2027, depois de ter seu mandato cassado na Câmara por 450 votos a favor, dez contra e nove abstenções, em setembro deste ano, o algoz da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) no processo de impeachment parece não ter mais nada a perder.
Mesmo com as atuais declarações de Cunha sobre delação premiada, é impossível negar que a sociedade aguarda ansiosamente por uma mudança de opinião de sua parte, já que esta poderia ser uma das mais fantásticas delações da história. Seria a oportunidade de colocar todos os envolvidos na Operação Lava Jato na bigorna e, quem sabe, de um recomeço do atual sistema político nacional. Depois de ter sua imagem destruída perante à população brasileira, é justamente Cunha quem mais poderá ajudar o Brasil neste momento, tirando os demais corruptos do poder e impedindo outros de retornarem.