A Academia Sueca, rompendo com seus padrões, elegeu como Prêmio Nobel de Literatura, Bob Dylan. Longevo na música, já nos anos 1960 o cantor e compositor retratava em seus protestos o clamor de toda uma geração. As letras de suas músicas, plenas de reclamos sócio-políticos, marcavam território.
Na justificativa da escolha, os jurados não se cansaram de salientar seus dons, intitulando-o como o maior poeta vivo, na tônica de Homero e Safo que, na antiga Grécia, cantavam seus versos.
Em modesta análise, tenho por mim, que os julgadores não alongaram suas vistas para a esquecida América do Sul. Sequer souberam da existência de Mercedes Sosa, dona de canções que, com frases contundentes, derramavam beleza e irresignação.
Também não se interessaram por aquilo que de mais bonito existe na literatura de protesto: as músicas brasileiras. Ou será que Dylan, por mais que se seja a ele devotado, algum dia superou Vandré? Ou, por acaso, suas canções bateram o lirismo, ou tiveram mais impacto que as de Chico Buarque? Ou se pode imaginar que superaram Veloso, Gil e tantos outros que, sofrendo as dores da ditadura, expuseram, como os sofredores africanos que forjaram nossa história, no langor entristecido dos cantos, suas mágoas e lamentos?
Versos cantados? Acaso percorreram o nordeste sofrido? Mergulharam em Suassuna? Ouviram os cordéis nas feiras livres? Seguiram as verdadeiras romarias que se fazem em louvor do "Cego Aderaldo" ou de Inácio da Catingueira?
Conselho singelo aos responsáveis pela escolha: quando quiserem ouvir "poesia cantada", visitem estes rincões, nos conheçam, aprendam um pouco. Garanto que mudarão de opinião!
Dylan é grande, mas os nossos, os americanos do sul, com os sentimentos que os caracterizam, são gigantes!