O inevitável aconteceu e o fim da era PT foi cravado em votação no Senado, que ontem aprovou por 61 votos a favor e 20 contrários o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Michel Temer (PMDB) foi empossado na Presidência da República ontem mesmo, em sessão no plenário da Câmara. Mas os pesos e medidas em meio a este fato que se tornou inevitável incomodam e deixam muita gente com o sinal de alerta ligado: a pedido de senadores aliados de Dilma, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Ricardo Lewandowski, decidiu realizar duas votações, o que causou muita estranheza e certamente será questionado.
No processo de impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, em 1992, mesmo tendo apresentado uma carta de renúncia antes da votação, ele teve seus direitos políticos suspensos por oito anos, além de ter sido destituído do cargo de presidente. Com Dilma foi diferente. A primeira votação a destituiu do cargo de presidente, mas a segunda manteve seus direitos políticos intactos, o que permite que ela volte a se eleger em 2018. Mas a questão, a curto prazo, não é essa. O perigo é que essa mudança na Constituição possa favorecer o agora ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB), que, a partir do presente momento, não poderá ter seus direitos políticos cassados, além de favorecer os demais envolvidos na Operação Lava Jato, que depois de julgados e afastados, poderão retornar ao poder em um futuro próximo. É o velho jogo do "toma lá, dá cá" que pode estar acontecendo neste momento entre os dois partidos em questão, o PT e o PMDB. Este segundo partido "alivia" um pouco a pancada em Dilma e, consequentemente, também tem membros de seu partido sem risco de perder os direitos políticos por oito anos. É preciso um esclarecimento maior.
O fato é que processos como esses são traumáticos, principalmente para um país de jovem democracia como o Brasil. Temer se tornou o terceiro vice a assumir a Presidência da República desde a redemocratização brasileira, o que comprova a fragilidade democrática e falta de estabilidade.
Esse clima deixa Temer, que entrou no comando do País pelas portas dos fundos, em situação delicada. Quando foi aberto o processo de impeachment no Senado, em maio deste ano, ele próprio declarou que seria muito difícil tomar alguma medida política ou econômica relevante até a definição do futuro de Dilma. Agora, passado o processo, é hora de mostrar resultados práticos em meio a muita instabilidade.