O processo de impeachment que culminou na cassação do mandato da agora ex-presidente Dilma Rousseff terminou no plenário do Senado anteontem, mas o assunto está bem longe de findar.
O termômetro que poderá indicar a continuidade da discussão é o comportamento de muitos senadores e deputados, em especial aqueles que prometeram recorrer da decisão no Supremo Tribunal Federal (STF): uns para contestar, novamente, a legalidade do teor que levou ao julgamento final; outros para refutar a "semi-penalidade" contra a petista, já que ela não perdeu o direito de ocupar funções públicas por oito anos, como estava previsto inicialmente. 
Ou seja, o clima de tensão e animosidade continua no ar. E contagia negativamente. Haja vista os protestos isolados que surgiram após a proclamação da decisão. Em que pese o fato de muita gente classificar todo o ocorrido como "golpe" contra a democracia, atos dessa natureza não são nem um pouco democráticos. Assim como não foi nem um pouco democrática a postura de professores e estudantes que protestaram contra o senador Cristovam Buarque (PPS-DF) no momento em que ele presidia uma sessão da Comissão de Educação, Cultura e Esporte para tratar do projeto de lei "Escola sem Partido", que defende a"neutralidade do ensino".
A despeito de o objetivo ter sido discutir a liberdade de expressão na sala de aula, o que se viu na verdade foi um grupo de pessoas destilando sua raiva contra o parlamentar, que foi chamado de "golpista" por ter votado a favor do impeachment de Dilma, embora tenha sido contrário a suspender os direitos políticos dela na segunda votação.
O momento serviu não para apoiar ou combater o projeto em discussão, mas para dar vazão a um sentimento antidemocrático de que o senador não poderia ter votado como votou. Alguns desses manifestantes se posicionaram atrás da cadeira de Cristovam Buarque com cartazes, de frente para a câmera que captava as imagens que eram transmitidas ao vivo pela TV Senado. A sessão acabou sendo encerrada. Faltou justamente a educação, sempre vilipendiada.
Numa época em que se discute tanto a ética e a tolerância, esse tipo de episódio, sim, depõe e muito contra a democracia. O que vale é apenas a opinião de um grupo, de um partido, de uma corrente política? E o direito do outro? Ainda mais de um senador da República? Aos poucos vai ficando claro quem realmente é a favor da intransigência, de passar por cima da lei, enfim, quem é de fato a favor de golpe.