Se olharmos com atenção à nossa volta, observaremos em nosso círculo de relações, ou até em nós mesmos, pessoas que, sem saber porque, jogam contra si próprias. Esse processo, em psicologia, chama autossabotagem.
O número de indivíduos com comportamentos autodestrutivos é muito maior do que se imagina. Você se perguntará: Mas o ser humano não é um ser movido pelo prazer, segundo sugeriu Freud? Então deveríamos estar sempre em busca de conforto, diversão, boa comida, bom sexo.
À primeira vista, pode parecer incoerente acreditar que um ser humano possa agir exatamente de maneira que o faça sofrer.
Quantos de nós conhece a mulher que se casa com um tirano como o seu pai? Cresceu tendo em casa um sujeito que foi sexualmente ou psicologicamente abusivo e acaba escolhendo o mesmo tipo de homem para se casar, sem que consiga enxergar alguma conexão com o seu pai. Ou, ainda, o homem que se casa pela segunda, terceira vez, com o mesmo perfil de mulher, que não o agradava ou satisfazia? Ou o menino de 12 anos, que promete a si mesmo que nunca faria o que seu pai fez: abandonar a esposa e filhos; porém, 30 anos depois, o mesmo garoto, agora um homem, deixa sua família?
Há também casos de indivíduos que tiveram pais ausentes na infância, tornando-se pessoas carentes de afeto, e acabam se apaixonando por parceiros frios e distantes. Ou, ao contrário, pessoas que passaram pela mesma negligência materna ou paterna e acabam encontrando em suas vidas parceiros afetuosos, amorosos e dedicados, mas, por não suportar o amor, acabam destruindo essas relações.
Da mesma forma, observamos que a criança considerada desligada e não tão inteligente, ao chegar à vida adulta, quando se encontra diante de situações que precise provar a sua capacidade, que, na maioria das vezes, possui, mas nunca foi reconhecida, acaba tendo comportamentos como cometer erros e falhas em uma entrevista de emprego, por exemplo, sem se dar conta de que está reproduzindo o que internalizou.
O que exatamente significam esses comportamentos? Seria uma forma de repetição arraigada, impingindo a si mesmo, e muitas vezes aos outros aquilo que eu mesmo sofri?
A maior parte desses frustrantes e destrutivos ciclos de repetições pode se estender por diversas gerações familiares, e está quase totalmente fora do domínio da consciência.
Não há uma regra geral, pois somos seres únicos. Crianças mais sensíveis poderão necessitar de maior atenção do que outras nem tão sensíveis. Há muitas variáveis, não existe uma regra para sentimentos e comportamentos. Mas os comportamentos autodestrutivos estão diariamente nos noticiários das TV e nas manchetes de jornais.
Ao nos debruçarmos sobre nossas feridas infantis, em terapia, teremos a oportunidade de encará-las com um novo olhar, para só então entender e ressignificar, modificando formas equivocadas. Segundo Jung, "Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta".