Frequentemente ouvimos frases do tipo: "Aquela criança é tão boazinha!", ou "Aquele rapaz, aquela moça são tão bonzinhos!", que um sinal de alerta se acende.
Recebemos inúmeras pessoas no consultório com queixas de melancolia, tristeza, desmotivação, baixa autoestima e dificuldade em reconhecer o seu real valor. E, ao realizar uma investigação mais profunda, descobre-se que, diversas vezes, foram consideradas crianças muito "boazinhas".
Não raras ocasiões, essas crianças viveram em lares conflituosos, onde os pais brigavam, e elas, por não saber lidar com essas emoções, de alguma forma sentiam-se culpadas e responsáveis por todo aquele conflito, comportando-se, quase sem vontade, como crianças boazinhas, retraídas, para não agravar o sofrimento dos pais, acabando por incorporar, na vida adulta, essa forma de estar no mundo.
Não que haja algo de errado em ser bom, mas quando somos tão bonzinhos a ponto de perdermos a referência de nós mesmos, e entregamos as decisões de nossas vidas nas mãos do outro, esperando que a felicidade venha junto, aí sim, é preciso investigar o que de fato se esconde ou nos faz querer ficar nesse lugar de tanta bondade e dependência.
A criança que passou a infância escutando isso dos pais ou dos cuidadores sente-se na obrigação de comportar-se como tal. Primeiro na infância, para agradar e não decepcionar os adultos, e depois na vida madura, deparando-se com as figuras de mando ou pessoas que, de alguma forma, conseguem as inibir, por serem justamente o oposto.
A criança vai desenvolvendo a crença de que só é aceita, admirada e amada se acata e faz tudo do jeito que os outros querem. Foi estimulada lá atrás, mas traz esse modelo para a vida e para as relações que estabelece.
Porém, ser sempre bonzinho implica abrir mão de quem se é, do que se quer e do que se gosta. Ocorre que, a essa altura, já não se sabe do que se gosta nem do que se quer, porque passou tanto tempo desempenhando o papel de bonzinho, que aprendeu a sufocar seus desejos, a não se ouvir, a não acreditar em si. E, diante de situações que exigem um posicionamento, não sabem o que fazer, não sabem dizer não, nem impor limites às pessoas ao redor. Tudo em nome dessa "persona" de bonzinho.
A "Persona" é um termo utilizado por Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço que fundou a psicologia analítica. Jung trouxe do teatro grego este termo, que significa "máscara", explicando que todos nós utilizamos "personas" diferentes para cada situação na vida, conforme nos apresentamos na sociedade, nas nossas relações pessoais e interpessoais. Utilizamos a persona de filho, de profissional, persona de pai, mãe, e assim por diante.
Utilizamos essas máscaras para nos apresentar em público, para podermos transitar de modo confortável e sermos aceitos no meio social, e as escolhemos de acordo com a nossa natureza, vivências familiares e sociais, elegendo as máscaras que acreditamos nos trazer maior aceitação no meio em que vivemos. No entanto, não somos essa "persona" que tentamos representar no mundo social. A nossa essência real, a nossa verdadeira individualidade não é aquela e, em algum momento da trajetória, utilizar essa "persona" de bonzinho acaba voltando-se contra nós.
E de que forma isso se manifesta? Nas nossas insatisfações, nas nossas tristezas e nos nossos momentos de agressividade gratuita, pois quando deixamos de ser nós mesmos para ser o que os outros esperam de nós, deixamos de entrar em contato com o nosso "eu interior", com o nosso "self", onde estão todas as nossas potencialidades e quem de fato somos.
É preciso notar que ao deixar de entrar em contato com o meu ser interior e viver na "persona" que, indiretamente, me foi imposta, e que, de alguma forma, me identifiquei e aceitei, perco-me da minha própria essência.
Por isso a importância da terapia, que nos estimula a entender o porquê de tanta insatisfação e falta de prazer aparentemente sem razão, mas que guardam relação com motivos que nos fazem deixar de ser nós mesmos e de acreditar em nossas potencialidades.