"O segredo da criatividade é construir uma casa na base de um vulcão", disse Nietzsche. Foi isso que nossos artistas revelaram no belo espetáculo da abertura dos Jogos Olímpicos, no Maracanã.
Aquele "pouquinho de Brasil" que bilhões viram no sábado foi um tanto do que somos: nativos interiorizados ou dizimados, africanos escravizados, imigrantes operosos, mas também espoliados. Transição do rural para o urbano, com a construção de cidades que reproduzem desigualdades similares à da estrutura fundiária. Devastação ambiental. Mas também desfilou a esperança teimosa de um povo diverso, que chora e canta, sofre e brinca.
Nelson Rodrigues disse uma verdade que constato in loco desde menino: "O Maracanã vaia até minuto de silêncio". Ali, com a crise do desemprego e a degradação política, quem escaparia do repúdio? Mas foi feio o presidente interino tentar fazê-lo à moda da baixa política, eivada de disfarce, fundada no truque. Sua Excelência temerária combinou com o COI de sequer ter o nome anunciado. Mesmo assim, quando a multidão vibrante e em alto astral percebeu que era ele quem, afinal, declarava abertos os Jogos, abriu a boca para apupar. O êxtase não tirou a lucidez.
Nossos atletas, por sua vez, fazem o que podem, em país que não valoriza muitos esportes. Paulo Freire dizia que "um dos problemas da educação brasileira é só cuidar das crianças e dos jovens do pescoço para cima".
Os dados são do Censo Escolar de 2015: quase sete de cada dez escolas públicas de educação básica não têm quadras esportivas (65,5%). No ensino médio a situação é ainda pior: só 10,5% dos colégios têm quadras! Quem subir ao pódio olímpico, fazendo tremular nossa bandeira, será, de fato, um vitorioso. Não houve massificação poliesportiva.
Ainda na alegoria olímpica, vale destacar que ontem completaram-se nada menos que 300 dias do processo contra Cunha na Câmara dos Deputados. Recorde absoluto, "medalha de lata" em protelação. Como querer que nosso sistema político e seus principais agentes escapem de estrondosas vaias?