"Visto que talvez nem tudo seja falso, que nada nos cure o prazer de mentir" - escreveu Bernardo Soares (Fernando Pessoa) no Desassossego. Ah!, o prazer de mentir... Problema é que, de vez em quando, ele sai caro. Você é americano. Campeão. E o Rio é mesmo uma cidade violenta, não dá para negar. Na sua cabecinha de bêbado, passou a ideia de poder dizer que foi assaltado. Poderia mesmo ter dado certo. Só que não deu. Paciência.
Como a carne é fraca, Ryan, seus companheiros de cachaça e baderna já tiraram o corpo fora. Não quiseram ser cúmplices. Ou não eram tão amigos assim. No seu país, há dito bem conhecido segundo o qual a diferença entre um homem honrado e um mentiroso (ladrão, na verdade) é que o segundo foi pego mentindo (roubando, na verdade). Você foi pego. Azar o seu.
Não sabemos o que aconteceu naquela noite. Conhecemos só o fim da história - com vocês completamente embriagados, quebrando tabuletas de publicidade e tentando escapulir sem pagar o prejuízo. Americano pode tudo, no íntimo vocês acreditam nisso.
Sabemos que a pena por essa mentira, no Brasil, é pequena. Cadeia, de 1 a 6 meses. E que pode ser paga por cestas básicas. Como você ganhou 80 mil dólares por sua medalha de ouro, dinheiro não é problema. Só que o pior está por vir. É que, assente ser você um mentiroso, será que a Nike e outros patrocinadores vão querer mantê-lo como garoto propaganda? Quanto vale, na mídia, alguém que mente? Você pode ser exemplo para crianças?
Assim, quando seus bolsos começarem a doer, talvez então você poderá perguntar como o já tão citado Pessoa: "Valeu a pena?" (em Mar Português, de Mensagem). Só então verá que a vida não imita a arte. O "Tudo vale a pena", do poema, não vale para seu caso. Sugerimos então que você procure outra namorada. Chore, no quarto, a perda dos patrocínios. Fique dizendo, aos jornais, "esqueçam o que eu disse". Nem tenha a má ideia, no futuro, de passar férias no Brasil. E, daqui a dois meses, pague suas penas votando em alguém que é muito parecido com você. Donald Trump.