Fogo aquece, ilumina, acrisola, derrete, energiza, purifica. Sua preservação foi essencial à sobrevivência da Humanidade. Talvez venha daí o fascínio que as fogueiras exercem, até hoje, sobre nós. Desde a infância gostamos de brincar com fogo. Toda chama nos chama.
Poucos se lembram, mas o principal festejo junino, tão celebrado no Brasil, em especial no Nordeste, é o louvor a um profeta, João Batista.
Reza a lenda que Isabel anunciou seu nascimento a Maria, sua prima, mãe de Jesus, com uma fogueirinha. Crescido, João tornou-se a "voz que clama no deserto".
Ele pregava uma mudança radical de vida. Fariseus e saduceus, chefes dos sacerdotes e subservientes à dominação do Império Romano o odiavam. O profeta pagou por sua rebeldia: Herodes, governador da Galileia, o prendeu e mandou decapitar.
A política, mais do que nunca, precisa de profetas, daqueles que denunciam as injustiças e a hipocrisia, e anunciam as possibilidades de uma sociedade mais justa e fraterna. A política não carece de messias, de "salvadores da pátria" que dispensam a cidadania. Profeta instiga, encanta e nos coloca em marcha. Messias, fora do âmbito religioso, macula o sentido maior da própria política, que propicie igualdade de oportunidades. Isso jamais será obra de um só, por mais carisma que tenha. Depender de um acaba por gerar o desencanto de todos.
Nesse Brasil da Lava Jato e jatinhos suspeitos, de créditos consignados desacreditados e propina institucionalizada, de CPIs achacadoras e árvores podres, precisamos daqueles que fazem política sem perder a dimensão da profecia, da utopia, do vir a ser. Daqueles que ainda acreditam ser possível fazer diferente.
Como Nilce Magalhães, a Nicinha, do Movimento dos Atingidos por Barragens, amarrada a pedras e jogada no lago da hidrelétrica de Jirau, em Rondônia. Como Jaílson Caíque, o Dão, morto por PMs a soldo da especulação imobiliária em Trindade (Paraty-RJ), por querer preservação e pedaço de chão.
Que seu martírio acenda a fogueira da Justiça em nossos corações!