As conversas gravadas pelo ex-senador e ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, são águas sujas de março invadindo a cena política. Elas ajudam a fechar o diagnóstico do que acontece mais uma vez no Brasil: a articulação de forças poderosas para seguir o conselho "é preciso que tudo mude, para que as coisas permaneçam iguais".
Além de Machado, dialogam sobre como interferir na conjuntura os senadores Romero Jucá e Renan Calheiros, e o ex-presidente José Sarney, condestáveis da República. Eles têm muito em comum: ocuparam ou ocupam posições de mando e influência, serviram a todos os governos desde a democratização, têm vínculos com tradicionais oligarquias do Nordeste, são do PMDB. E, em especial, todos consideram que a "crise" não é a que deixa 11 milhões de brasileiros no desemprego, mas a do mundo político, ameaçado pela Lava-Jato. Esta é a "sangria" a ser estancada.
Nenhuma novidade, toda gravidade: é o velho papo das elites, patrimonialistas e oligárquicas, sobre como implementar modos e meios de preservar seus negócios. Se, para tanto, for necessário obstruir a Justiça, que se obstrua. Se o regime parlamentarista evitar instabilidade para os "de cima", que seja implementado. Se for preciso destituir uma presidente da República que "deixou a coisa andar" e já não tem força política, que se destitua.
Tratativas do "pacto entre iguais": afinal, "todos estão com medo", isto é, têm rabo preso com os esquemas que começam a ser desmontados. "Toda a classe política vai para o saco" - do PT ao PSDB, passando pelo PMDB, PP, DEM, PTB e que tais. Machado excetua um mínimo no Congresso: "só uns cinco"...
Os diálogos dos caciques revelam sua falta de espírito público e os interesses mesquinhos que os movem. O personagem da hora é Fabiano Silveira, atual ministro da Transparência, Fiscalização e Controle, que se propõe acionar uma controladoria das investigações que possam fiscalizar seus pares.
Aguardemos os próximos capítulos. Que a cidadania não capitule, perdendo a capacidade de se indignar diante de tão mesquinha conspiração.