A sensação que se tem ao se deparar com a principal notícia do dia de ontem é de que muita gente está de brincadeira com a situação atual e o futuro do País. É bem provável que a decisão já tenha sido derrubada depois que esse texto editorial foi escrito, mas o fato é que grande parte da classe política não é séria ao agir em favor de partidos e de nomes em detrimento das consequências danosas para toda a população.
Em uma decisão estranhamente repentina e que levanta suspeitas sobre a honestidade e a espontaneidade de seu surgimento, indicando mais uma artificialidade bancada de forma escusa, o presidente interino da Câmara Federal, deputado Waldir Maranhão (PP-MA), determinou a anulação da tramitação do pedido de impeachment de Dilma Rousseff (PT).
Na prática era a tentativa de cancelamento das sessões que trataram do assunto entre 15 e 17 de abril, que culminaram na aprovação da admissibilidade da denúncia, e pedindo o retorno do processo do Senado para a Casa. E ainda estipulou cinco sessões para refazer a votação. A previsão era de que a decisão fosse publicada na edição de hoje do Diário da Câmara, mas é bem provável que nem mesmo tenha ido para frente.
Embora muitos deputados tenham agido imediatamente com apresentação de recursos junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), houve quem na hora defendeu que a determinação de Waldir Maranhão é juridicamente inexistente, ou seja, não tem base nenhuma que a sustente e que por si só é nula, cabendo ao Senado ignorá-la e dar sequência ao processo até a votação previamente agendada para amanhã como se nada tivesse acontecido.
Foi uma jogada e tanto que pode custar muita coisa para o futuro do Brasil. Logo após o afastamento de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) da Presidência da Câmara, seu sucessor é cooptado para dar um contragolpe com a tentativa de encontrar "pelo em ovo". Que decadência do governo depender de um parlamentar inoperante, investigado na Operação Lava Jato e também alvo de outras denúncias.
É bem provável que, apesar da surpresa causada ontem, tudo já tenha voltado ao normal hoje, mas o episódio mostrou como muita gente está disposta a a brincar com a vida de milhões de pessoas. O País está parado há meses. Enquanto toda essa crise não se resolver, a estagnação permanecerá, a economia continuará não girando, empresas não se sustentarão e a fila do desemprego só aumentará. Foi uma brincadeira de mau gosto que só mostra do que são capazes de fazer aqueles que estão no poder para lá se manterem. Nada mais importa. Só eles mesmos e seus cargos.