Estão abertas as inscrições para o Curso Prático de Preservação, Cores e Técnicas na Pintura de Casarões Históricos. O prazo começou na última segunda-feira (5) e segue até a próxima terça-feira (13). Coordenada pelo Colégio de Arquitetos (CDA), presidido pelo arquiteto e urbanista Paulo Pinhal, a formação gratuita terá início em 25 de janeiro e será realizada no casarão da rua Boa Vista, no Centro de Mogi das Cruzes, que será objeto de estudo e terá a pintura revitalizada. 

O curso, a pintura do casarão e a produção de um livro sobre o imóvel integram um projeto de Pinhal, contemplado em um edital do Programa de Fomento à Arte e Cultura (Profac), da Prefeitura de Mogi, que passou a incluir recentemente ações voltadas à preservação do patrimônio histórico. Os interessados no curso devem se inscrever pelo link https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSeqxfawXYn67BqI3L3-_lCIuMLT8KRegKiZmIrLl6NCXL0XtA/viewform
 
Pinhal, que é proprietário do imóvel e conselheiro do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Artístico (Comphap), diz que o projeto tem como objeto principal compartilhar informações sobre os cuidados com imóveis históricos. “Esse projeto não é apenas de restauro. Para conseguir o recurso, muito bem fiscalizado e detalhado, ele precisa comprovar o retorno para a sociedade”, conta. Por isso, além da pintura, o projeto prevê a realização do curso e a produção de um livro que contará a história do casarão e as técnicas construtivas utilizadas.
 
Na visão de Pinhal, a criação do curso está ligada a um problema recorrente no centro de Mogi: a escassez de profissionais capacitados para atuar em edificações históricas. “No Conselho, a gente prioriza que as construções fiquem o mais próximo possível da originalidade, mas não se encontra quem saiba executar. Esse curso nasce exatamente dessa experiência, para começar a formar pessoas que saibam trabalhar com essas técnicas”, explica. Ele destaca outra iniciativa com este objetivo: o Programa Oficina Escola de Patrimônio (POEP), formação realizada no ano passado pela Secretaria Municipal de Cultura.
 
O arquiteto ressalta que até recentemente não existiam mecanismos na cidade que ajudassem proprietários de imóveis históricos a cuidar de edificações históricas. “Antes, quem tinha casarão só tinha ônus, não tinha bônus. Agora começam a surgir caminhos, não só no Profac, mas também em outros mecanismos de fomento. São incentivos para as pessoas que detêm esses imóveis, o que possibilita uma mudança de comportamento. Antes muitas pessoas pensavam em demolir por conta da dificuldade de preservar", conta.

Atividades
 
As aulas do curso serão realizadas aos sábados, com duração de quatro horas, e abordarão temas como preservação internacional, leitura arquitetônica, metodologia de restauro, história da arquitetura local, ética na intervenção, paisagismo e técnicas construtivas tradicionais.
 
As atividades práticas, segundo Pinhal, incluem preparo de paredes, uso de argamassas, cal e pigmentos, testes de cor e definição de padrões diretamente no imóvel. “A gente vai trabalhar onde der para usar a técnica original. Onde for possível preservar, a gente preserva”, afirma o arquiteto. Ele destaca que o casarão possui paredes de taipa de pilão e taipa de sopapo, também chamada de pau a pique, com espessura que chega a cerca de meio metro.

O arquiteto destaca que a proposta do curso é formar multiplicadores desse pensamento. “Se eu simplesmente contrato uma equipe, faço a obra e pronto, o que estou devolvendo para a sociedade? O que a gente quer é multiplicar esse conhecimento que foi perdido”, diz.
 
 Para alcançar mais pessoas, além das aulas presenciais, o curso terá transmissão ao vivo pelo YouTube. “Mesmo quem não for selecionado vai poder acompanhar. Quanto mais gente falando sobre conservação, técnica retrospectiva e restauro, melhor para a cidade”, afirma. 

Até a última quinta-feira (8), cerca de 50 pessoas haviam se inscrito para o curso. De acordo com o arquiteto, como as vagas são limitadas, haverá um comitê que irá analisar todos os pedidos. O resultado dos aprovados deve ser divulgado na próxima quinta-feira (15).

Preservação
 
 O arquiteto decidiu ampliar a intervenção, com recursos próprios e aprovação dos proprietários, para outros dois imóveis vizinhos que integram o mesmo conjunto arquitetônico do casarão, incluindo também o tratamento paisagístico. “Não faz sentido deixar uma casa bonita e as duas do lado abandonadas. É um conjunto, então a ideia é olhar para tudo”, explica. 

Para Pinhal, a preservação do patrimônio histórico está diretamente ligada à memória e ao pertencimento. Ele avalia que, sem esse olhar, a cidade corre o risco de perder sua identidade. “A gente respeita os edifícios históricos porque eles são a nossa memória”, afirma.
 
Centro cultural

 
O casarão da rua Boa Vista, onde o curso será realizado, abrigou por mais de uma década o Centro Cultural Antônio do Pinhal (CECAP) e pertence à família Pinhal desde os anos 40. Até o fechamento durante a pandemia de Covid-19, o espaço, que tem uma arquitetura colonial, recebeu lançamentos de livros, exposições, saraus, cursos e apresentações artísticas, com a circulação de milhares de pessoas ao longo dos anos. 

Segundo Pinhal, a experiência cultural vivida no imóvel também influencia o projeto atual: “Se a gente dá um curso, escreve um livro, documenta a história da edificação, isso reforça muito mais a preservação. Por isso que é interessante que outros projetos de restauro, editais, incluam a elaboração de livros, porque o prédio sem a memória é apenas um elemento".
 
 O livro do casarão, previsto no edital, deve ser lançado no primeiro trimestre deste ano, reunindo memórias familiares, registros históricos e o período em que o imóvel funcionou como espaço cultural.

Galeria

Foto 1 - Casarão abrigou o Centro Cultural Antônio do Pinhal (CECAP) - divulgação

Foto 2 - Conjunto arquitetônico terá restauração da pintura e será objeto de estudo no curso - divulgação