Um texto sobre ditadura militar, escrito na ótica do Destacamento de Operação e Informação - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi). Este é o cenário que permeia "Fábrica de Chocolate", espetáculo que o Teatro da Neura estreia, neste sábado, às 20 horas, em sua sede, o Espaço N de Arte e Cultura.
Com direção de Amabile Luz e dramaturgia de Mario Prata, a peça estará em cartaz neste sábado e domingo, e no próximo fim de semana. Os ingressos custam R$ 12. O espaço de cultura fica na rua José Garcia de Souza, 692, no Jardim Imperador, em Suzano. A classificação indicativa é de 16 anos.
Encenado nos Centros Educacionais Unificados (CEUs), em São Paulo, "Fábrica de Chocolate" conta a história de um homem, que, após ser torturado, "cometeu suicídio", segundo o órgão repressor. A peça faz uma alusão ao caso do jornalista Vladimir Herzog, morto há 41 anos pelo DOI-Codi. Versão reconhecida pelo Estado apenas em 2012. Até então, pregava-se que após um "depoimento", o jornalista havia se enforcado.
De acordo com Amabile, o texto escrito por Prata é atual, devido ao período que vivemos no Brasil, "iniciado nos protestos de 2013 pela diminuição das tarifas nos transportes públicos, a brutalidade na contenção da ocupação dos estudantes nas escolas, o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e o ex-vice-presidente Michel Temer se tornando responsável pelo Poder Executivo".
"Os agentes da repressão do passado se assemelham com a polícia que atira em manifestante, prende estudante dentro da escola e aborda negro na periferia. O texto é muito dinâmico e optamos por acrescentar um prólogo, com dramaturgia de Antônio Nicodemo e direção de Fernandes Júnior, onde teremos uma tropa de choque de batedores de panela, uma mulher dando voz às outras, um alienado conveniente", comenta.
Reflexão
"Fábrica de Chocolate", que foi apresentada em 2014 como leitura encenada, no Espaço N, e transformada em peça neste ano, para ser encenada nos CEUs. O texto convida o público à reflexão sobre o passado e para onde a sociedade caminha. Isso porque desde 2013, quando Amabile selecionou o texto, o País passou por transições importantes.
"Selecionei o texto para leitura, meses depois aconteceram as manifestações de junho de 2013. Manifestações por ora legítimas e com pautas plausíveis, mas que foram tomadas de um exagerado nacionalismo e acabaram por fortalecer o aparecimento de grupos neonazistas, fascistas e militaristas", opina.
Dois anos depois, a leitura encenada ocupou o Espaço N, sede do Teatro da Neura, e, no começo de 2016, o grupo teatral foi contratados para apresentar a peça nos Centros Educacionais paulistanos.