Novas tecnologias e a ampliação do cultivo protegido têm sido determinantes para manter a produção agrícola expressiva no Alto Tietê, avalia Rolando Salomão, agrônomo da Coordenação de Assistência Técnica Integral (CATI) Regional de Mogi das Cruzes. Segundo ele, esses avanços ajudam os produtores a enfrentar um cenário de chuvas cada vez mais concentradas e ondas de calor mais frequentes, que exigem atenção também neste verão.
Vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA) do Estado de São Paulo, a CATI atua na assistência técnica e na extensão rural junto aos produtores, acompanhando os impactos das variações climáticas. Salomão explica que temperaturas elevadas afetam diretamente o desenvolvimento de culturas como alface, uma das principais da região, provocando crescimento precoce das plantas e folhas mais amargas, o que compromete a qualidade comercial. Um levantamento preliminar aponta que a produção de alface na área da CATI Regional de Mogi, formada por 12 cidades, somou 30.806 toneladas em 2025.
Para minimizar os efeitos do clima, o agrônomo afirma que os produtores têm adotado sistemas hidropônicos, estufas e técnicas de plantio direto, aliadas ao trabalho de pesquisa e ao desenvolvimento de variedades mais tolerantes às condições climáticas adversas. Destaque ainda para a alta variabilidade climática na região, que, segundo ele, dificulta análises mais amplas, como no caso de chuvas intensas em municípios como Suzano, enquanto Mogi registra volumes baixos de precipitação.
João Paulo Nikolau, diretor da CATI Mogi, também reforça que a instabilidade do clima tem se tornado uma tendência e afeta principalmente períodos em que as culturas estão mais expostas. Ele explica que a alternância entre excesso de chuvas e escassez hídrica interfere na colheita, aumenta o risco de inundações e provoca perdas indiretas no campo, comprometendo a previsibilidade da produção.
O diretor afirma ainda que reservatórios em níveis baixos, como ocorre atualmente, reduz a disponibilidade de água para irrigação justamente em um período de maior demanda, que é o caso do verão. Na manhã de quarta-feira (14), o Sistema Produtor Alto Tietê (SPAT) operava com 21,4% da capacidade. Há um ano, o índice era de 40,9%, segundo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp).
Embora não aponte risco de desabastecimento, ele afirma que a situação exige planejamento por parte dos produtores, já que a ocorrência de chuva em um único dia não garante regularidade no abastecimento hídrico ao longo da safra.
Nikolau também destaca o impacto de fatores externos, como a instalação do pedágio nas rodovias Mogi-Dutra e Mogi-Bertioga, com desafios da logística do setor, embora os custos ainda não tenham sido mensurados. Para ele, a capacidade de adaptação tem sido uma característica constante do produtor rural. Ele avalia que a busca por competitividade e rentabilidade passa necessariamente pela adoção de tecnologia e pela melhoria da forma de comercialização, caminhos essenciais para compensar custos e garantir sustentabilidade à atividade agrícola.
Produção na região
No campo produtivo, Nikolau ressalta que Mogi tem destaque nacional no cultivo de cogumelos e de frutas como caqui e nêspera e, junto aos municípios do entorno, segue como um dos principais polos produtores de hortaliças do Estado. A qualidade do solo, disponibilidade de recursos hídricos e proximidade dos grandes centros consumidores são apontados como fatores estratégicos da cidade.
Os números regionais evidenciam o protagonismo da região. Um levantamento preliminar aponta que a produção de alface na área da CATI Regional de Mogi totalizou 30.806 toneladas em 2025, com valor estimado em R$ 127,5 milhões. Os números abrangem as cidades de Arujá, Biritiba Mirim, Ferraz de Vasconcelos, Guararema, Itaquaquecetuba, Mogi, Poá, Salesópolis, Santa Isabel e Suzano, além do Grande ABC, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.
No Estado, a alface segue como a principal hortaliça cultivada em São Paulo. Dados do Instituto de Economia Agrícola – Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (IEA–APTA/SAA) indicam que, em 2025, o estado produziu mais de 220 mil toneladas da cultura, avaliadas em R$ 947 milhões.
Para Nikolau, embora nem sempre a relevância da agricultura seja percebida pela população urbana, o setor tem papel estratégico e foi fortalecido pela imigração ao longo dos anos. Ele destaca a importância dos japoneses e seus descendentes no desenvolvimento do setor e a permanência de famílias no campo que seguem atuantes na produção, unindo tradição e inovação.