"Sempre trabalhamos para nunca deixar faltar nada em casa. Nunca imaginámos que um dia iríamos passar por isso: ter que ver nossos filhos dormindo na rua, sem nenhuma segurança ou proteção". É assim, cabisbaixo e com a voz embargada, que o desempregado José Jorge Silva, de 57 anos, relata os momentos difíceis que passou na última semana, quando, sem dinheiro e lugar para ir, precisou pernoitar em uma rua da área central de Mogi das Cruzes, em pleno inverno, com a sua esposa, Margarete Maria da Silva, 44, e os dois filhos, de 6 e 8 anos.
Nascido em Minas Gerais, Silva se mudou para São Paulo, onde, nos últimos três anos, trabalhou como caseiro em um sítio em Ribeirão Preto. Porém, com a crise econômica, seus patrões precisaram se desfazer do imóvel e ele ficou desempregado. Foi, então, que precisou voltar para o Estado de origem. "A gente não tinha dinheiro para viajar nem família para nos ajudar. Passamos por Mogi porque era o caminho mais fácil. Na primeira noite na rua, um padre viu a nossa situação e chamou o pessoal do abrigo para nos ajudar", contou.
Após três dias no acolhimento, a expectativa era que a família fosse encaminhada para a casa de familiares, em Poços de Caldas, em Minas Gerais. "Estamos esperando a confirmação da Prefeitura, mas vamos para a casa da minha sogra. Só tenho a agradecer, pois todos nos acolheram muito bem", ressaltou Margarete.
O local em questão é uma das Casas de Passagem da Associação Maranathá, localizada na rua Casarejos. O serviço de acolhimento, subvencionado à Prefeitura, é destinado a mulheres e crianças em situação de rua.
De acordo com a assistente social da unidade, Fernanda Barros, o caso da família é apenas um entre tantos outros no município. "Na maioria das vezes, há essa ligação de que o morador de rua sempre é um dependente químico ou alcoólatra. Na verdade, são 'pessoas em situação de rua', e os motivos que as levaram até ali são os mais variados, desde problemas familiares a questões de saúde ou financeiros", explica.
Na casa de passagem os acolhidos levam uma rotina comum. A estrutura, desde a fachada até o interior, é a de uma residência. "Nós temos esse cuidado de proporcionar um ambiente familiar e, apesar de haver funcionários, sempre que possível as mulheres fazem atividades na cozinha ou ajudam na limpeza, justamente para que estejam ambientadas com o funcionamento de um lar", destacou.
Segundo o presidente, Geraldo Antonio Marques, o desafio é reinserir esses cidadãos na sociedade. "Queremos mostrar aos acolhidos que esta é uma oportunidade para eles retomarem suas vidas, seja voltando para a família, conseguindo um emprego ou se livrando da dependência", frisou.(S.L.)