Imagine que um caminhão é parado pela polícia para verificar a carga e dentro do baú há centenas de portas de um mesmo modelo de carro, sem qualquer tipo de documentação. O motorista conta aos policiais que ouviu que as peças são roubadas, entretanto, como não há nenhuma comprovação, a polícia não pôde realizar qualquer prisão. Esse é um dos exemplos usados pelo delegado seccional de Mogi das Cruzes, Jair Barbosa Ortiz, para explicar os crimes de receptação de peças automotivas.
Um dos principais objetivos do delegado é diminuir índices criminais, em especial, em casos de furtos e roubos de veículos, com ações para "fazer com que esses índices caiam realmente", como pontuou ontem, em entrevista à reportagem. "Não haveria furtos e roubos de veículos se não tivéssemos os chamados receptadores, que são os criminosos que não praticam nem o roubo e o furto, mas de uma forma clara participam do crime porque compram objetos furtados ou roubados. Se não fosse essa ponta da linha comprando, não teríamos o mercado de furto e roubo", apontou o Ortiz.
Os primeiros aspectos são desmanches que trabalham irregularmente. "Há os regularizados, mas eles se tornam ilegais se descobrirmos que existem peças à venda que tenham sido retiradas de veículos furtados ou roubados". O problema preocupa a polícia, já que a maioria das peças automotivas não permitem saber a procedência. "Se eu encontrar, num desmanche, uma porta sem os vidros, não tenho nela nenhum elemento que me permita dizer que pertencia a um veículo específico e que foi roubado ou furtado", ressaltou. Sem apresentação de comprovação da origem das peças, a polícia não consegue autuar o dono de um desmanche ilegal.
Veículo de seguros
Outro ponto que favorece esse mercado é o comércio por seguradoras de veículos, como apontou o delegado. Quando um veículo tem perda total, o dono receberá integralmente o valor do carro uma vez que não compensa consertar o veículo quando o custo supera os 75% do valor de mercado do carro. "A partir desse momento há um vácuo que permite que a seguradora venda esse veículo destruído com documentação, como se ele pudesse ser consertado, vendendo abaixo do mercado. Se alguém comprar o carro por R$ 20 mil, mais R$ 40 mil para consertar, vai ter um carro por R$ 60 mil, sendo que o valor de mercado é R$ 50 mil". O terceiro ponto é a reparação veicular, quando oficinas recebem da seguradora determinado valor para consertar um carro e acabam buscando peças mais em conta, oriundas de roubo ou furto para terem um lucro maior.
Para auxiliar a discussão, o delegado contou que é preciso ter uma alteração legislativa para poder autuar em flagrante pessoas que transportam objetos de receptação. "Quem furta e rouba carro elimina peças identificáveis. Se não multiplicar os agentes públicos que tem a ver com essa questão, não conseguiremos diminuir esse mercado porque, o furto propriamente dito, está atribuído que a polícia não está fazendo nada. Esse é um mercado de múltiplas facetas", concluiu.