Como protagonista da realidade da educação brasileira, afirmo com convicção: o chão da escola é muito diferente da realidade apresentada por índices, relatórios e estatísticas. Os números podem até indicar avanços, mas, para quem vive a sala de aula diariamente, eles frequentemente mascaram uma realidade muito mais dura.

Falo com conhecimento de causa. Ou o Brasil decide fazer da educação sua maior prioridade, como fizeram China e tantos outros países que compreenderam que o desenvolvimento de uma nação começa pela formação de seu povo, ou continuaremos desperdiçando recursos e tempo, sem construir um futuro verdadeiramente soberano.

O investimento precisa começar na base. É na Educação Infantil e nos anos iniciais que se formam os alicerces da aprendizagem. Sem uma base sólida, todo o restante se torna uma tentativa de remediar problemas que poderiam ter sido evitados.

Hoje, muitos alunos chegam ao Ensino Fundamental sem dominar princípios básicos de aritmética, leitura, escrita e ciências naturais. Ao concluírem o Ensino Médio, não são poucos os que demonstram conhecimentos equivalentes aos de um estudante do oitavo ano. Para qualquer professor comprometido com sua missão, essa realidade é inaceitável.

Mas de quem é a culpa?

Do aluno, que muitas vezes enfrenta uma realidade familiar e social sem incentivo, estrutura ou oportunidades? Do Estado, que insiste em políticas públicas insuficientes, descontinuadas e, por vezes, mais preocupadas com indicadores do que com aprendizagem? Ou dos professores, frequentemente sucateados, desvalorizados, sobrecarregados e obrigados a fazer muito com quase nada?

Talvez a resposta esteja justamente na soma de todos esses fatores. Enquanto buscarmos um único culpado, continuaremos apenas enxugando gelo. A educação brasileira não precisa de maquiagem estatística. Precisa de coragem para enfrentar seus problemas, de investimentos consistentes na formação de professores, de valorização da escola pública e, principalmente, de um compromisso coletivo com as futuras gerações.

Uma nação não se torna soberana por acaso. Ela se constrói, antes de tudo, dentro da sala de aula.


Antonio Carlos da Silva é professor da rede pública, pesquisador e escritor