Cerca de 64 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais deixaram a escola antes de concluir a educação básica. O número, revelado pelo estudo "População de 15+ fora da escola, demanda potencial por EJA e transições para o trabalho", da Rede EJA e Inclusão Produtiva, com apoio da Unesco, escancara uma urgência histórica: mais de um terço da população nessa faixa etária, ou seja, 37,3%, vive sem o direito à educação.

O levantamento mostra que esse contingente é marcado por desigualdades profundas. A maioria é composta por pessoas negras, mulheres que interromperam os estudos para cuidar da família, trabalhadores informais e jovens que enfrentaram trajetórias escolares marcadas por reprovações, evasão e falta de apoio pedagógico. São brasileiros que, apesar de terem deixado a escola, não abandonaram o desejo de aprender e constituem a demanda potencial pela Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Mas a EJA, segundo o estudo, não dá conta da dimensão do problema. A cobertura é baixa, irregular entre Estados e municípios, e sofre com salas vazias, currículos pouco conectados à vida adulta e ausência de políticas permanentes de busca ativa. O resultado é um ciclo que se retroalimenta: sem escolaridade, as oportunidades de trabalho diminuem; sem trabalho digno, a permanência na escola se torna inviável. O impacto econômico é direto: menor produtividade, informalidade persistente, renda mais baixa. E, com relação ao aspecto social, é devastador, porque as desigualdades atravessam gerações.

O cenário exige respostas estruturais. Garantir a educação básica para todos passa por políticas de permanência, integração entre escola e mundo do trabalho, ampliação da EJA com modelos flexíveis e valorização das trajetórias interrompidas.

O estudo aponta que, se o Brasil quiser construir um futuro promissor, precisa assumir que educação não é apenas um direito. É a base da cidadania, da autonomia e da inclusão produtiva. Nenhuma sociedade avança deixando milhões de pessoas para trás.


Suéller Costa (sueller.costa@gmail.com) é jornalista, pedagoga, educomunicadora e pesquisadora. Doutoranda em Educação (FEUSP). Mestre em Ciências da Comunicação (ECA/USP). Especialista em Educomunicação (ECA/USP). Sócia da ABPEducom e APEP. Idealizadora do Educom Alto Tietê. Contatos: @educomaltotiete; @suellercosta