O incêndio criminoso que atingiu a árvore centenária localizada ao lado do Theatro Vasques, no Largo do Carmo, não representa apenas um ato de vandalismo. É um ataque ao patrimônio ambiental, histórico e cultural de Mogi das Cruzes. A confirmação da Defesa Civil de que a estrutura da árvore foi gravemente comprometida e precisará ser removida revela uma perda irreparável, construída ao longo de muitas décadas.

Árvores de décadas não podem ser substituídas simplesmente pelo plantio de uma muda. Embora o replantio seja necessário e deva ser incentivado, serão necessárias várias gerações para que uma nova árvore alcance o porte, a sombra, o equilíbrio ecológico e o valor paisagístico da que será perdida. A reposição é uma obrigação ambiental, mas não elimina o prejuízo causado pelo crime.

O episódio também evidencia a necessidade de ampliar o sistema de vigilância permanente do Centro Histórico. O município já possui câmeras de monitoramento, mas acontecimentos como este demonstram a importância de fortalecer essa rede, ampliando a cobertura e utilizando tecnologias de monitoramento inteligente capazes de identificar ações suspeitas em tempo real. 

A proteção do patrimônio histórico deve caminhar lado a lado com a proteção do patrimônio ambiental, pois ambos fazem parte da identidade da cidade.

Da mesma forma, a segurança pública precisa incorporar uma visão de proteção ambiental. Crimes contra árvores históricas não podem ser tratados como ocorrências de menor importância. Quando uma árvore de décadas é destruída, perde-se biodiversidade, conforto térmico, qualidade do ar, abrigo para aves e parte da memória urbana. São danos que afetam toda a população.

Infelizmente, esta não é a primeira vez que Mogi das Cruzes perde árvores importantes sem que exista uma política consistente de compensação e planejamento da arborização urbana. Um exemplo marcante foi a retirada da grande árvore existente na calçada do Supermercado Shibata, em frente ao SENAI. A supressão ocorreu, mas a população nunca viu uma reposição equivalente capaz de restaurar a paisagem e os benefícios ambientais perdidos. Casos como esse acabam transmitindo a sensação de que árvores maduras podem ser eliminadas sem um compromisso efetivo com sua substituição.

É preciso romper esse ciclo. Cada supressão autorizada deveria estar vinculada a um plano público de compensação ambiental, com transparência, acompanhamento técnico e metas claras de sobrevivência das novas mudas. Não basta plantar; é necessário garantir que as árvores cresçam, sejam cuidadas e realmente recomponham a arborização da cidade.

O Centro Histórico possui características próprias que tornam as árvores ainda mais importantes. Elas reduzem as ilhas de calor, proporcionam conforto para quem caminha, valorizam o patrimônio arquitetônico, incentivam o turismo, melhoram a qualidade do espaço público e ajudam a enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. 

Uma cidade histórica sem árvores perde parte de sua beleza, de sua identidade e de sua qualidade de vida.

Este triste episódio deve servir como um ponto de reflexão. É fundamental que Mogi das Cruzes avance na elaboração de uma política ambiental permanente para o Centro Histórico, integrando arborização, preservação do patrimônio, segurança pública, monitoramento eletrônico, educação ambiental e participação da sociedade.

Quem destrói uma árvore centenária não atinge apenas um tronco ou uma copa. Destrói décadas de crescimento, compromete o equilíbrio ambiental e fere a memória coletiva da cidade. Preservar nossas árvores é preservar a história, o clima, a biodiversidade e a qualidade de vida das futuras gerações. 

Que a perda desta árvore seja o último alerta antes que outras histórias igualmente centenárias desapareçam da paisagem mogiana.


Paulo Pinhal é arquiteto e urbanista e conselheiro do Conselho Municipal de Patrimônio Histórico, Cultural, Artístico e Paisagístico (COMPHAP)