As revelações feitas pelo Intercept Brasil colocaram o Flávio Bolsonaro, pré-candidato a presidente do Brasil, no olho do furação do caso Banco Master. E não só ele. Mas também o senador Ciro Nogueira, até então cotado para ser seu vice.

No caso do senador Ciro, investigações da Polícia Federal apontaram uma relação de muita proximidade dele com o banqueiro Daniel Vorcaro, inclusive com indícios de ser ele recebedor de uma mesada do banqueiro que variou de 300 a 500 mil reais mensais. As apurações apontam para um esquema de benefícios mútuos, envolvendo essas mesadas milionárias e outras vantagens em troca de atuação política e legislativa em seu favor.

Como sempre acontece nesses casos, a primeira reação é a negação. Tanto Flávio Bolsonaro quanto seus aliados negaram qualquer envolvimento ou proximidade com o banqueiro Daniel Vorcaro. Em seguida, com a divulgação de áudios e novas reportagens, a versão passou a ser a confirmação parcial e, no momento seguinte a estratégia é o ataque e tentativa de distanciamento.

Ao acompanhar as constantes mudanças de versões, acabei me lembrando de uma série “O Túnel do Tempo”, exibida na TV entre 1966 e 1967. Nela, dois cientistas voltam no tempo para tentar proteger um projeto secreto e ficam presos na máquina do tempo, viajando e vivendo diversas aventuras no passado e no futuro.

E eu embarquei nesse túnel para voltar até o início dos anos 90, para reviver o processo que resultou no impeachment do ex-presidente Collor. Em maio de 1992 estourou a denúncia que daria início ao processo de impeachment do presidente. Seu irmão, Pedro Collor, concedeu entrevista à revista Veja acusando-o de manter uma sociedade com o empresário Paulo César Farias, tesoureiro de campanha de Collor.

Durante a CPI que investigava as denúncias de corrupção que recaiam sobre seu governo, as versões iam mudando como acontece hoje em relação ao Banco Master. Um dos momentos mais marcantes, foi quando Collor e seus aliados mais próximos criaram a famosa “Operação Uruguai”. Essa versão foi apresentada na CPI por Cláudio Vieira, secretário particular de Collor. Ele afirmou que havia contraído um empréstimo fictício no valor de US$ 5 milhões junto a uma instituição financeira em Montevidéu. Segundo a narrativa, parte desse montante teria sido convertida em ouro e usado para cobrir as despesas do presidente.

As investigações da imprensa, da Polícia Federal e do Ministério Público, desmascararam a farsa arquitetada para ocultar propinas. A farsa não apenas fracassou em impedir o afastamento do presidente, como acelerou a sua derrocada política.

Qualquer semelhança não é mera coincidência. 

 

Afonso Pola (acelsopp@gmail.com) é sociólogo e professor