Recentemente, durante meus estudos em um curso de Filosofia, fui profundamente impactado pela leitura da obra “Resposta à pergunta: O que é o Esclarecimento?” de Immanuel Kant. O conceito de “menoridade intelectual”, apresentado pelo filósofo em 1784, provocou em mim não apenas reflexões teóricas, mas também uma associação imediata com experiências observadas nas relações humanas e na clínica psicanalítica.

Para Kant, a menoridade intelectual é a incapacidade do indivíduo de fazer uso do próprio entendimento sem a orientação de outra pessoa. O mais impactante em sua análise é a afirmação de que esse estado não decorre necessariamente da falta de inteligência, mas da ausência de coragem e decisão para pensar por si mesmo. Em outras palavras, muitas pessoas possuem capacidade racional, mas preferem delegar suas escolhas, opiniões e caminhos a terceiros.

Ao estudar esse pensamento, me espantei ao perceber o quanto essa condição está em mim, em amigos e frequentemente na clínica psicanalítica. É comum encontrar pessoas com grande potencial intelectual, sensibilidade e percepção da própria realidade, mas que enfrentam enorme dificuldade em assumir uma posição de ação diante da sua vida. Muitos permanecem presos à necessidade constante de validação externa, esperando que familiares, líderes religiosos, parceiros, médicos ou até a sociedade decidam por eles.

Kant descreve esse comportamento como uma forma de comodismo. Segundo ele, “é cômodo ser menor”, pois pensar autonomamente exige responsabilidade, risco e maturidade. Delegar decisões torna a vida aparentemente mais simples, já que evita o enfrentamento das consequências das próprias escolhas. Essa observação filosófica permanece extremamente atual em uma sociedade marcada pela dependência emocional, pela influência das redes sociais e pela busca incessante por aprovação. A expressão utilizada por Kant:  Sapere Aude! (“Ouse saber!”), ganha uma dimensão provocadora e prática: Que possamos nos ajudar!


Marcelo Barbosa é jornalista, pedagogo e psicanalista. Autor da trilogia “Favela no divã” e “A vida de cão do Requis”.