Durante conversas informais no I Congresso de Psicanálise em Sorocaba, no último sábado, no qual tive o privilégio de compartilhar minhas experiências analíticas, surgiu um tema instigante entre profissionais de diferentes tradições religiosas: estudar a mente humana, pode levar alguém a perder a fé?
Entre análises e reflexões, foi lembrado que Sigmund Freud, nascido em uma família judia, declarava-se ateu e compreendia a religião como um fenômeno psicológico. Para ele, a religião seria uma ilusão necessária, criada pela mente humana para lidar com o medo, a morte e a insegurança. Também a interpretava como uma projeção da figura paterna, uma necessidade infantil de proteção e, ainda, como um mecanismo de controle social, responsável por sustentar normas e organizar a vida em sociedade.
Não foi negado nas conversas que o pai da psicanálise tem razão nos tópicos apresentados, mas a maioria dos presentes concordou que estudar psicanálise, psicologia, neurociência, entre outros campos, pode levar o indivíduo a questionar a experiência religiosa, mas não necessariamente a abandoná-la, quando existe uma construção de senso histórico, reflexão e convicção pessoal.
Por outro lado, o que pode se abalar ao estudar a psique, não é necessariamente a fé religiosa, mas a fé no próprio comportamento humano. A psicanálise revela que o sujeito não é plenamente racional e nem sempre conhece as verdadeiras motivações de suas ações. Muitos comportamentos são atravessados por desejos inconscientes, conflitos internos e mecanismos de defesa.
Esse encontro com a complexidade da mente pode gerar certo desencanto ao perceber que nós, e os outros, somos mais contraditórios do que imaginámos. Atitudes aparentemente altruístas podem ocultar carências, busca por reconhecimento ou tentativas inconscientes de lidar com frustrações. A observação técnica evidencia que, em uma doutrina valorizada pela prática do amor, o problema não é a religião, mas a pessoa religiosa.
Marcelo Barbosa é jornalista, pedagogo e psicanalista. Autor da trilogia “Favela no divã” e “A vida de cão do Requis”.