Gurus de plantão afirmam que ao poeta cabe o papel de legislador não reconhecido do mundo! Assim, como já disse antes, correndo todos os riscos imagináveis, estou me arvorando de poeta. Do sudeste. De Mogi das Cruzes, da Vila Oliveira, da rua Sérgio Plaza.
Minhas idéias, mesmo as mais audaciosas, em ciência ou em política, nasceram ali, na cidade, como o perfume nas flores. Ali onde planta mística lançou em minha alma seu pólen fecundo. Ali onde o calor solar nutriu minhas boas qualidades e secou as más. Sem qualquer outro mérito nisso: para me alinhar, fugi! Fugi do empreguinho chinfrim, de afazeres de parcos horizontes, da vida sufocante e pequena.
Inventei um mundo feérico, de sonoras e ferozes rimas. Um happening esplendoroso: ateei fogo ao substantivo, ao verbo, aos complementos, à linha de expressões de indumentária banal, como se meu próprio corpo, fosse. Não eram: sobrevivi! Abati a poesia à moda antiga, coloquei-a sob a fé de crítica compulsiva. Fiz dela, altar, bandeira. Enterrei o poema numa campa feia de doer. Sepultei com ele a metafísica, que insistia em tornar minhas noites plenas de Freud, sem a possibilidade de chegar a conclusões válidas, mesmo sob sonhos simbólicos, de plantão.
Não há nenhuma poética universal. Universal é a poesia, como a vida. Universal é Shakespeare, cuja voz se apagou há tempos, e sua privilegiada garganta insiste em se fazer presente, pela voz de um sem número de talentosos atores, nos palcos da vida.
Universal é o quintal da casa, cheio de plantas frutíferas explodindo verde no contemplativo dia mogiano, longe de Paris, onde parte do meu coração, em momentos de lucidez, se refugia, a bem, da estética e da experiência.
O bem-te-vi, o sabiá que nascem e ali morrem! Por entre as árvores, nem sempre engalanadas de apetitosos frutos. Universal porque Dona Rosa, o piloto, amassando pimenta dedo de moça, reina numa cozinha atapetada de guloseimas que engordam menos, na medida em que alimentam mais.