As 400 páginas da delação de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, é semelhante à "metralhadora ponto 100 da Odebrecht", na imagem criada pelo ex-presidente da República, José Sarney - ele próprio na mira de graves acusações. Se existisse, essa arma de destruição teria o dobro da potência de uma AK 47, que pode derrubar helicóptero...
O que está aparecendo é um "arsenal transpartido", que abasteceu quase todo o mundo político. Saindo da metáfora das armas de fogo, o que se vê é um Machado cortante que atinge as maiores árvores da nossa devastada floresta partidária. E mostra, didaticamente, como é feita a irrigação do "bioma" envenenado: as estatais abrem uma "caixa forte" que é abastecida pelas empresas que ganham contratos com elas; seus dirigentes, como Machado, repassam o que há no fundo milionário de propinas para partidos e campanhas, que os declaram ou não à Justiça Eleitoral. E ainda sobram recursos criminosos para as polpudas mesadas do enriquecimento patrimonial pessoal. Acredite: segundo Machado, a Petrobras do jorro de desvios é das mais recatadas, "a madame mais honesta dos cabarés do Brasil".
As 134 autoridades públicas e empresários sob investigação, em, até aqui, 59 inquéritos, têm comportamento distintos. Enquanto praticamente todos os mal chamados "políticos" se recusam a admitir as falcatruas, repetindo que "tudo foi feito dentro da lei", vários empresários fazem "mea culpa" e acertam sua colaboração, buscando a sobrevivência de seus negócios.
A dúzia de partidos afetada, entre eles todos os grandes, do PT ao PSDB, do PMDB ao PP, não assume suas responsabilidades e reafirma que todas as bandalheiras foram "atos isolados" de seus filiados. Todos apostam na desinformação ou na memória curta da maioria da população: daqui a pouco estarão aí pedindo votos, como se não houvesse um ontem e um hoje que não os descredenciasse para o amanhã.
Só uma Reforma Política - oriunda de constituinte eleita em novas bases -, Justiça efetiva e sem seletividade e mobilização cidadã podem começar a banir do País a corrupção estrutural.