Em pleno século 21 ainda é possível se deparar com notícias sobre escravidão. A mais recente envolvendo o Alto Tietê é sobre duas empresas autuadas em Suzano e Itaquaquecetuba porque 18 pessoas foram flagradas em situação de trabalho forçado. Parece mentira, mas há ainda quem se ache superior ao seu semelhante a ponto de ter a certeza de que pode exigir tudo dele, inclusive a obrigá-lo a fazer o que não quer ou sem qualquer remuneração e salubridade.
A falta de humanidade tem um preço alto para quem é vítima, pois se vê privado da própria liberdade e ligado inexoravelmente a quem o explora, sem encontrar nenhuma saída para o flagelo que sofre. Mas também tem um preço para quem assim age, sem escrúpulos. Não apenas no campo da fé e da religião, para quem crê que haja punição para atos delituosos, imputada seja por uma divindade ou mesmo pelo próprio autor, em uma sequência de ação e reação, porém pela lei. Há que se ter rigor, sempre.
Por sorte, há entidades e o próprio Poder Público agindo. Os casos flagrados na região foram fruto de fiscalização do Ministério do Trabalho, após denúncias. Deste total, quatro pessoas trabalhavam em uma fábrica de blocos em Suzano, enquanto 14 eram mantidas em uma oficina de costura em Itaquá.
Essa situação faz pensar sobre quantos outros seres humanos não passam por algo semelhante ou até pior em qualquer lugar do mundo. Casos que, infelizmente, podem não se tornar públicos porque ainda não foram descobertos, porque ninguém teve a coragem de denunciar. Se ninguém estiver em favor dessas vítimas - e não do ponto de vista metafísico, mas aqui, na Terra -, os responsáveis ficarão incólumes e a Justiça não será feita.
De acordo com um estudo recente da Walk Free Foundation, a escravidão moderna atinge 45,8 milhões de pessoas no mundo. Segundo o relatório, na América Latina há 2,16 milhões de trabalhadores que vivem nesta situação, sendo 161,1 mil no Brasil. Entre as práticas mais conhecidas estão o tráfico de pessoas, a servidão por dívida e o trabalho doméstico. Esse tipo de exploração gera um lucro de US$ 150 bilhões por ano no mundo inteiro, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT).
A constatação exige cada vez mais a presença e a atuação das autoridades para combater essa prática perversa que envolve adultos e crianças. E também chama à responsabilidade a própria sociedade, para que esteja atenta e se coloque sempre contra a escravidão ou qualquer tipo de trabalho que exponha as pessoas a situações desumanas.