Há cidades que apenas existem. Outras, mais raras, narram. Mogi das Cruzes não se limita a ser chão, endereço ou cenário: ela conta histórias. Quem aprende a escutá-la percebe que seus muros, ruas e rios falam às vezes alto, às vezes em silêncio, sobre quem fomos, quem somos e quem ainda podemos ser.
A cidade não se revela de imediato. Como certos personagens densos da literatura, exige convivência. É preciso caminhar sem pressa, observar com atenção e aceitar que nem tudo será explicado de forma objetiva. Mogi se constrói em camadas, como um livro escrito a muitas mãos, em tempos diferentes, com intenções nem sempre coincidentes.
No “centro histórico”, o tempo parece respirar mais devagar. Ali, fachadas antigas sustentam memórias que não cabem em placas comemorativas. A estação ferroviária, por exemplo, é mais do que trilhos e horários: é um lugar de espera e de passagem, de despedidas contidas e retornos esperançosos. Ela viu trabalhadores chegarem antes do sol, famílias partirem com malas pequenas e sonhos grandes, estudantes atravessarem décadas em poucos minutos de viagem. Hoje, observa. E quem observa guarda.
As ruas são frases. Algumas longas, congestionadas, escritas às pressas, quase sem pontuação. Outras são curtas e delicadas, feitas para serem lidas a pé. Há ruas que nos expulsam e ruas que nos convidam a ficar. Cada uma revela escolhas feitas ao longo do tempo: o que priorizamos, quem deixamos passar, quem obrigamos a desviar.
O rio Tietê, em Mogi, é talvez o personagem mais poético e mais frágil dessa narrativa urbana. Aqui ele nasce promessa. Corre estreito, quase tímido, como se ainda acreditasse que será cuidado. Ele nos lembra, todos os dias, que a cidade não termina em seus limites administrativos. O que fazemos com ele aqui ecoa adiante, por quilômetros, por gerações. O rio ensina que planejamento urbano é também um gesto moral.
Os bairros mogianos são capítulos distintos de um mesmo romance. Alguns carregam a força do trabalho, da indústria, da ferrovia e da migração. Outros nasceram de loteamentos, sob o discurso do planejamento, do novo, do possível. Há bairros que ainda pedem o básico e outros que já discutem o refinamento da vida urbana. Todos coexistem, nem sempre em harmonia, mas sempre em relação. A cidade é esse diálogo constante, às vezes cordial, às vezes tenso.
Como arquiteto e urbanista, aprendi a ler a cidade com régua, norma e desenho. Como professor, observo como o espaço ensina sem pedir permissão: ensina a esperar, a dividir, a respeitar ou a ignorar o outro. Mas são nas minhas escritas que compreendo algo essencial: cidades têm temperamento. Elas reagem. Endurecem quando são negligenciadas. Florescem quando são cuidadas.
Praças abandonadas são personagens esquecidos. Calçadas quebradas narram descuidos antigos. Espaços públicos vazios revelam decisões que afastaram as pessoas umas das outras. Em contrapartida, parques vivos, ruas ocupadas por corpos em movimento, feiras, esporte e encontros inesperados mostram uma cidade que deseja ser compartilhada, não apenas atravessada.
Toda cidade vive conflitos, e Mogi não é exceção. Crescer ou preservar? Subir ou espalhar? Acelerar ou desacelerar? Essas perguntas escrevem o roteiro urbano todos os dias. O perigo está em tratar a cidade apenas como problema técnico, quando ela é, antes de tudo, experiência humana, memória coletiva e afeto construído.
Talvez o maior risco seja permitir que Mogi se torne um personagem genérico, parecido demais com tantos outros, sem rosto e sem pausa. Reconhecer a cidade como personagem é um convite à escuta, ao cuidado e à responsabilidade. É aceitar que o espaço que criamos molda, silenciosamente, a forma como vivemos.
Mogi das Cruzes ainda escreve sua história. Cada obra, cada decisão, cada espaço preservado ou esquecido acrescenta uma linha a esse texto comum. A pergunta permanece aberta, simples e profunda: que personagem queremos que esta cidade seja no futuro? Porque, ao escrevermos a cidade, escrevemos, inevitavelmente, sobre nós mesmos.