Uma doença que há milênios estigmatiza seus portadores e que a cada ano produz 30 mil novos casos somente no Brasil é um dos mais graves e desconhecidos exemplos de como equívocos em políticas públicas podem repercutir ao longo de várias gerações. O livro "À Margem das Páginas - O papel da imprensa no apoio ao isolamento de hansenianos" (Editora UFABC), do jornalista e escritor Guilherme Gorgulho, traz à tona a obscura história das privações vividas pelos pacientes de hanseníase, antigamente conhecida como lepra, nos cinco asilos-colônia construídos em São Paulo.
O livro será lançado neste sábado, às 17 horas, no Casarão da Mariquinha, localizado na rua Alfredo Cardoso, 2, largo Bom Jesus. O evento é gratuito. Mais informações pelo telefone 3374-1844. No dia do lançamento, exemplares serão vendidos pelo preço promocional de R$ 40, com pagamento somente em dinheiro. A compra também pode ser feita através da editora. Saiba mais pelo link http://editora.ufabc.edu.br/index.php/catalogo/32-a-margem-das-paginas.
A obra tem o mérito de revelar como os jornais tiveram um papel preponderante na manutenção da internação compulsória ao longo do século XX. O lançamento mostra que a rígida estratégia do governo paulista de isolar pacientes em qualquer estágio da doença, privando-os de seus direitos civis supostamente em prol da população sã, entre as décadas de 1930 e 1960, como ocorreu em Mogi das Cruzes no Asilo-Colônia Santo Ângelo, produziu o efeito contrário, elevando a endemia no Estado de São Paulo.
As vítimas da hanseníase sofreram abusos durante o período de institucionalização comparáveis aos dos presos de campos de concentração nazistas, que culminaram com uma revolta armada generalizada nos sanatórios em 1945.
Gorgulho pesquisou os principais jornais paulistas do período para compreender de que modo a Imprensa se aliou ao governo, com o respaldo do serviço médico oficial, para dar sustentação ao degredo, contrariando recomendações internacionais e calando as vozes divergentes do meio científico. Além disso, entrevistou personagens que foram protagonistas nesse período e buscou fontes primárias de informação em acervos públicos e privados.
Consequências
Mesmo longínquo no tempo, esse episódio da história brasileira ainda repercute no Brasil de 2016, seja por meio das pensões pagas aos ex-pacientes internados, seja pelos filhos dos hansenianos vítimas de alienação parental que buscam reencontrar seus pais e suas origens. A fatura dos erros cometidos pelo governo ainda está sendo cobrada da sociedade contemporânea, mas elucidar de que maneira aconteceram poderá evitar que esses equívocos se repitam.