A convivência entre indígenas e não indígenas é fundamental para a construção de uma sociedade mais inclusiva e tolerante, é o que acredita Mauro Samuel, cacique da Aldeia Rio Silveira, do povo Guarani. Localizada entre os municípios de Bertioga, São Sebastião e Salesópolis, a aldeia abriga cerca de 200 famílias, somando aproximadamente 1.100 pessoas. No Dia dos Povos Indígenas, celebrado neste domingo (19), ele destaca a importância da troca de conhecimentos e da valorização da cultura indígena.
Para o cacique, o contato direto é o que permite que o público entenda, na prática, o modo de vida dos povos originários, descontruindo estereótipos. “É muito importante o público aprender e conviver com a gente, porque assim conhece a realidade da nossa cultura, da nossa religião, do nosso conviver, do nosso modo de viver. A pessoa, quando não tem conhecimento, não entende. Acaba achando que o indígena ainda vive pelado, que mata o inimigo para comer. Muitas pessoas ainda têm essa visão, mas isso não corresponde à realidade", explica Mauro.
Nesse contexto, o evento “Tekoa Rio Silveira - Celebração dos Povos Originários” foi criado. A programação começou no sábado (18) e segue até terça-feira (21), com atividades como danças tradicionais, práticas de arco e flecha, cantos, pintura corporal, entre outras práticas tradicionais do povo Guarani. A iniciativa é realizada pela Aldeia Rio Silveira e conta com apoio das Prefeituras de Bertioga e São Sebastião.
As atividades acontecem na própria aldeia, com acesso pelo km 183 da Rodovia Rio-Santos, das 10h às 16h. Essa é a 4ª edição do evento, que é aberto ao público, e tem como objetivo valorizar a cultura, os costumes e as tradições dos povos originários, além de promover a convivência e a integração entre moradores e visitantes.
“Durante o evento, o público não só aprende, mas também faz parte da convivência. Vai conhecer os artesanatos, ver como são feitos; como é feita a tinta, a pintura, o significado de cada uma; a comida típica e como ela é preparada. Tudo isso faz parte dessa vivência. Isso é muito importante, porque a pessoa convivendo tem a clareza total das culturas indígenas e da tradição”, ressalta o cacique.
Mauro deixa ainda um convite para a população: “Participem, porque é só assim que se entende de verdade o que são os povos originários. É por meio da participação e do conhecimento que a gente chega a esse entendimento". Ele reforça que interessados em agendar uma visita à aldeia podem entrar em contato pelos telefones (12) 99247-9653 ou (13) 99208-3183.
Desafios e avanços
Em relação aos desafios enfrentados pela Aldeia Rio Silveira, o cacique destaca a ampliação da demarcação territorial. O território é reconhecido pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e possui uma área demarcada de aproximadamente 948 hectares, o que garante o direito de uso e permanência da comunidade na área.
No entanto, o cacique afirma que a comunidade luta pela ampliação do território para 8.500 hectares.“Para manter nossa cultura e nossas tradições, precisamos de um espaço reconhecido pelos governantes, com a demarcação das terras que garantam a nossa sobrevivência. É uma luta que já dura muitos anos, décadas, e que ainda não teve o reconhecimento necessário por parte do poder público. Mas a luta continua, apesar das dificuldades, acreditando que uma hora vamos conseguir”, afirma.
Apesar dos desafios, o cacique ressalta que a comunidade também conquistou avanços importantes nos últimos anos. Entre eles, Mauro destaca a Escola Municipal Indígena Guarani Nhembo e Porã e a Escola Estadual Indígena Txeru Ba e Kua-i, localizadas dentro da própria aldeia. Segundo o cacique, essa é uma conquista relevante pois evita que as crianças sofram bullying ou enfrentem outros desafios fora da comunidade.