O Brasil teve cinco indicações ao Oscar 2026, anunciadas na última quinta-feira (22), com destaque para o filme "O Agente Secreto", que concorre em quatro categorias. Para o cineasta mogiano Rodrigo Campos, que acumula cerca de 50 prêmios, o resultado demonstra a efervescência do cinema nacional, ligada a avanços em políticas públicas de incentivo e à valorização de identidade, e pode ter reflexos impulsionando a produção regional. Outro indicado foi o diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso pelo seu trabalho no filme norte-americano “Sonhos de Trem”, na categoria Melhor Fotografia.
O sucesso de "O Agente Secreto", dirigido por Kleber Mendonça Filho, abre novos horizontes para o cinema nacional, segundo Campos. No Oscar, a produção concorre como Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Direção de Elenco e Melhor Ator, com o protagonista Wagner Moura. Ele, aliás, já ganhou o prêmio de Melhor Ator em Filme de Drama no Globo de Ouro, no último dia 11. A cerimônia do Oscar será no dia 15 de março.
Campos lembra ainda que, na edição anterior do Oscar, o filme "Ainda Estou Aqui" venceu como Melhor Filme Internacional, garantindo a primeira estatueta brasileira na categoria e maior visibilidade para o Brasil. As produções nacionais também têm conquistado outras premiações importantes, com maior relevância crítica, segundo ele. “Nos últimos cinco ou seis anos, estamos chegando com frequência a grandes festivais, como Cannes, Berlinale e o Globo de Ouro, onde inclusive 'O Agente Secreto' recebeu prêmios”, destaca.
O cineasta compara o momento atual como uma nova fase de ouro do cinema nacional, mostrando também a diversidade do país: “Estamos ressurgindo para o cenário mundial com obras muito brasileiras, levando nossa narrativa para fora do país. Nosso cinema está potente, ganhando visibilidade. Estão se concretizando núcleos distribuídos pelo país, que deixam o sistema efervescente, como no Nordeste e Centro-Oeste. Estamos indo além do eixo Sul-Sudeste que sempre foi mais relevante".
Parte desse avanço, segundo Campos, se deve a políticas de incentivo, como a Lei Paulo Gustavo, do Governo Federal, que destina recursos para ações e projetos culturais. Porém, os desafios continuam e ele defende cotas de tela para os filmes nacionais: “O país nos últimos dois ou três anos teve uma efervescência na produção, mas temos dificuldade de fazer essa produção escoar, de chegar ao grande público. A regulamentação do streaming e cotas de tela é essencial. Hoje temos menos de 10% das telas para cinema brasileiro, enquanto países como Espanha, Coreia e França têm 40%.”
Região
O Alto Tietê acompanha a tendência nacional e mostra crescimento da produção local, na avaliação de Campos, por meio de leis e editais de incentivo. Ele cita que Mogi tem a Lei de Incentivo Fiscal para Projetos Culturais (LIC), que possibilita a pessoas físicas e jurídicas destinar parte dos impostos que pagariam ao município para projetos culturais. “O cinema é uma arte cara, muito coletiva, sempre muitas pessoas se envolvem. Sem apoio, não conseguimos realizar", ressalta.
Campos destaca ainda o surgimento de novos realizadores na região, muitos migrando de vídeos no YouTube para o cinema profissional. “Ainda falta muito para conseguir remunerar melhor e ter mais qualidade, mas já temos muitos novos diretores despontando", pontua.
Festivais e mostras locais, segundo o diretor, também têm potencializado a produção e ajudado a formar público. “Em Suzano, o ‘Curta Suzano’ está na nona edição, oferecendo uma mostra regional que exibe e premia filmes produzidos aqui. Em Mogi, realizamos a ‘Mostra de Cinema Itapety’, um festival com mais de 130 exibições em 15 lugares locais", conta, O evento em Mogi deve ter uma segunda edição em agosto.
Trajetória
Campos atua com cinema há cerca de 10 anos, após uma carreira no audiovisual. Inicialmente, trabalhou em produções de outros diretores, e a partir de leis de incentivo, como a LIC municipal, conseguiu realizar seus próprios filmes, como o documentário “Serráqueos”, de 2021, que retrata a Serra do Itapeti e foi premiado em 20 festivais pelo mundo.
“Nos últimos 10 anos, realizei oito filmes assinados, a maior parte documentários e também três ficções. As temáticas são pautadas principalmente na preservação da memória, trazendo questões sociais, políticas e de gênero. Procuro contar histórias do meu entorno, falar da Serra do Itapety, do Rio Tietê, da minha ancestralidade italiana, da imigração no contexto político da época. Acho muito importante preservar essa memória e tento trazer isso para meu cinema.”
O cineasta participou de mais de 200 festivais e conquistou 49 prêmios. Ele também atuou como produtor executivo em outras oito obras, abrindo portas para novos realizadores da região. “O mais importante é, aos poucos, ir abrindo espaço para novas pessoas ocuparem e quem sabe ter no futuro um cinema mais forte", finaliza.