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A síria Fadwa Jamal Alddin, de 44 anos, sempre gostou de cozinhar e aprendeu tudo que sabe sobre culinária sozinha. Em setembro, ela começará a dar aulas de cozinha árabe no Centro de Apoio à Educação de Jovens e Adultos (Crescer), programa da Prefeitura de Mogi das Cruzes. A professora já havia monitorado um minicurso no local no início deste mês, o qual foi bem aceito e contou com mais de 50 inscritos.
De acordo com a diretora do Departamento de Educação Não-Formal da Secretaria da Educação Municipal, Ana Cláudia Montemor, a Fadwa será a primeira refugiada a trabalhar no Crescer. "O Crescer tem esse perfil de dar oportunidades tanto para os alunos como para os monitores começarem a sua carreira. Temos, inclusive, ex-alunos que hoje são monitores nas unidades", informou.
A equipe de reportagem do Grupo Mogi News foi até a casa de Fadwa e sua família para conversar sobre as suas expectativas para o curso e conhecer mais sobre a sua vida. Bem receptiva, a professora nos preparava café com massala, tempero típico da Índia, enquanto o filho dela, Saleh Helali, de 28 anos, contava um pouco sobre a história da família. "Nós somos de Damasco, a capital da Síria. Eu estou no Brasil há três anos, já ela e meus irmãos, há dois. No momento, estamos tentando trazer meu pai, Khaled, mas ainda não conseguimos".
Como muitos outros casos, a Família Alddin veio para o país fugindo da guerra que devasta a Síria desde 2011. "Nós queríamos ir para um lugar onde não seríamos simplesmente reduzidos ao termo 'refugiados'. Logo, o Brasil sempre foi a nossa primeira opção". Quando questionado se ele e os seus parentes já foram alvo de preconceito, Helali nega rapidamente. "Aqui não tem isso não. Aliás, tanto a cidade quanto as pessoas de Mogi das Cruzes nos lembram muito Damasco".
Expectativas
Depois de servir o café, Fadwa nos explicou sobre o curso, não contendo o entusiasmo. Segundo a professora, serão dez aulas de quatro horas no total. Cada encontro contará com a receita de uma pasta, uma salada, um salgado e um doce, além do prato principal. Além disso, ela confessa que aproveitará o curso para uma troca de conhecimentos. "Ainda não sei falar português muito bem. Espero que, por meio da interação que terei com os alunos, eu consiga me aperfeiçoar no idioma. Esta participação não será só para ensinar, mas também para aprender", destacou.
Fadwa esclarece que foi graças ao filho que conheceu o Crescer. "Saleh lecionava um curso de árabe por lá. Um dia, ele trouxe uma de suas alunas para jantar em casa. Ela simplesmente adorou a minha comida e me indicou para dar aulas de culinária no Cempre. O minicurso foi como um experimento e fiquei muito feliz com a adesão dos participantes. Agora, não vejo a hora de começar a dar aulas definitivamente".
Ainda que a culinária seja a sua paixão, Fadwa trabalhava na Síria como manicure em um salão de beleza. "Viver da culinária por lá é complicado, porque praticamente todo mundo sabe cozinhar. Então, minha mãe trabalhava em salões de beleza. No Brasil, o cenário é diferente, tanto que estamos cogitando abrir um restaurante na cidade", esclareceu o filho.
Além disso, a família diz que não tem planos de voltar para a Síria, uma vez que já estão bem instalados no município. "É claro que sentimos falta do nosso país, mas já nos acostumamos com a rotina daqui. Caso voltássemos, teríamos que começar do zero de novo, o que não é fácil. Só esperamos, agora, que meu pai venha morar com a gente", disse Helali, que, recentemente, casou com a professora brasileira Fernanda Galeano. (Texto supervisionado pelo editor).