Sempre motivado, participativo, engajado e idealizador de importantes projetos sociais na cidade, Padre Vicente completa 90 primaveras neste domingo. Além de comemorar a sua rica trajetória, em especial ao período que remete à sua dedicação à vida de muitos idosos em Mogi das Cruzes e região, festeja a sua saúde e contínua disposição."Quero agradecer a Deus pela saúde, pois a idade é muita", disse Alfredo Morlini, mais conhecido como Padre Vicente, durante entrevista, ao relembrar que, desde quando era apenas um coroinha em uma das Igrejas de Roma, já se preocupava em ajudar o próximo.
Estudou Teologia em Roma, e, logo após se formar, mudou-se para Bolonha, também na Itália, onde iniciou a sua vida como sacerdote. Depois de dez anos, pediu permissão para ir ao Acre para realizar trabalhos missionários, que, de acordo com ele, sempre foi seu o ideal. "Quis vir para ver os problemas sociais do local, tendo em vista, em modo especial, os idosos".
Após quatro anos de muitos desafios e trabalhos realizados em Rio Branco, adquiriu a doença malária e, na época, um médico lhe disse que lá na cidade não teriam condições de realizar o tratamento. O doutor recomendou São Paulo como opção para conseguir bons procedimentos. A partir disso, foi à capital paulista, onde entrou para um grupo de sacerdotes na Vila Mariana, que estava com novos projetos em vista.
O grupo começou a iniciar atividades com o objetivo de arrecadar dízimo, que é uma contribuição que os católicos fazem durante a vida paroquial para as igrejas locais. Junto à sua preocupação em conseguir arrecadar recursos, percebia quanto as pessoas idosas estavam esquecidas e precisavam de apoio."Um dos trabalhos mais importantes durante a minha vida foi acompanhar o Estatuto do Idoso, que agrupa e registra em leis os direitos para pessoas acima de 60 anos. Isso já era algo muito necessitado pela população da época, pois só havia o Estatuto da Criança e do Adolescente, mas tudo que está ditado já era um trabalho realizado por mim para dar uma vida melhor àquelas pessoas".
Com o sucesso de seu projeto para arrecadação do dízimo, veio para Mogi das Cruzes com a mesma proposta. "Todas as atividades que promovi foram com conselhos do bispo de cada lugar, tudo em função da pastoral da região em que eu estava", comentou.
No município, fez a mesma campanha e conseguiu mais de 600 contribuintes logo no início, o que animou a todos, principalmente o bispo, que permitiu que Padre Vicente passasse a realizar missas em uma paróquia da cidade. E por lá ele exerceu a sua vocação durante muitos anos, mas teve que deixar de realizar algumas atividades na igreja. "Agora estou apenas aproveitando a minha velhice, e me sinto feliz por completar 90 anos de caminhada nesta jornada. Só tenho de agradecer a Deus pela saúde, que, apesar da idade, ainda consigo viver um sacerdócio limitado, porém, com disposição, dentro das minhas possibilidades", acrescentou.
Padre Vicente não esconde o amor pelos projetos e realizações que deu vida ao longo do tempo, que, segundo ele, foi um grande trabalho para conseguir ajudar os idosos e promover a eles uma vida digna e com acompanhamento, porém feito de coração. "Quando a gente se dedica a um ideal, é difícil sair do rumo certo. Ao longo da vida, é possível seguir, mesmo não sendo sempre na mesma atividade, mas há um fio que nos conduz até o fim da caminhada", conta ele, que escreveu diversos diários com o passar dos anos, os quais possibilitaram que exercesse melhor o idioma, tanto o italiano quanto o português, mas o principal motivo não parava por aí.
"Eu pude registrar muitos momentos da minha vida com projetos, trabalhos de ajuda a cooperativas, operários e camponeses na Itália, e foi uma experiência muito bonita. Sempre me dediquei à vida sacerdotal e ao trabalho social, com muita fé, o que é o ponto principal", Morlini reforça que a fé é indispensável por ser um elemento fundamental na vida das pessoas.
Ao olhar para trás
Alfredo Morlini revela que, quando chegou ao Brasil, tinha algumas dificuldades com o idioma, mesmo sendo um pouco similar ao italiano, mas que logo encontrou quem pudesse ajudá-lo, além dos estudos. "As crianças foram minhas professoras de Português e me ensinaram o idioma. Também pesquisei muito, pois sentia que, com eles, eu poderia falar errado e estaria tudo certo", disse emocionado.
"Percebo que tenho vocação, pois, quando ainda era uma criança, me dedicava muito e gostava de estar na paróquia e participar de todos os projetos", lembrou ele, que sempre buscou uma vida simples e dedicada a Deus e ao próximo. "Ao olhar para toda essa trajetória, a maior vantagem foi ser sempre fiel ao meu sacerdócio, nunca duvidei da minha vocação, mesmo nos momentos mais difíceis. Assim como foi no Acre, onde cheguei a passar fome, pois naquela época vivi em um local muito isolado, mas nunca desanimei. Nunca esqueci o meu passado, pois foi uma aula de vivência. Na Itália, tive uma paróquia muito importante e lá tudo era fácil, já aqui, tive de começar do zero, pois só tinha os conhecimentos como sacerdote, o que foi uma experiência formidável" concluiu.