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Se manter 20 anos como treinador de basquete no Brasil não está entre as tarefas mais fáceis, longe disso. Mas, o vitorioso treinador do Mogi das Cruzes/Helbor, Jorge Guerra, o Guerrinha, já tem esse feito no currículo, inclusive, na semana passada, ele chegou ao jogo de número 300 pelo Novo Basquete Brasil (NBB), equivalente ao Campeonato Brasileiro - uma marca histórica. Se somar as competições organizadas pela Confederação Brasileira de Basketball (CBB) e da Liga Nacional de Basquete, o comandante atuou em 564 jogos e tem 353 vitórias, o que o torna também o mais vitorioso do NBB. Neste ano, Guerrinha tem o desafio de, junto com seu competente elenco, vencer o NBB e a Liga das Américas. Mas, quem conhece Guerrinha sabe que o lema é 'pés no chão'... e muito trabalho.
Mogi News: Como avalia este início de temporada no NBB? Chegou, enfim, a vez do Mogi/Helbor?
Jorge Guerra (Guerrinha): Há várias equipes que têm condições de brigar pelo título. As duas equipes com o melhor plantel na minha opinião são Franca e Flamengo, mas outros times também fazem ótimas campanhas. É um campeonato muito difícil e que ainda pode ter muitas mudanças na tabela. É importante estar no G4 mas, mais importante é chegarmos aos playoffs sem jogadores machucados e, claro, jogando bem. Estamos super satisfeitos com nossa campanha no NBB até aqui, assim como com o convite para disputar a Liga das Américas. Lógico que a competição continental vai nos custar um pouquinho no NBB, mas o importante é chegar no mês de maio, se possível, com o titulo da Liga das Américas, que tem um formato menos cansativo, mais rápido, e ainda bem colocado no NBB, que é uma disputa mais longa e cansativa.
MN: Fechar o ano na liderança do NBB trouxe uma certa tranquilidade ou só aumenta a pressão para a sequência da temporada?
Guerrinha: Eu acho que nem aumentou e nem deu tranquilidade, porque sabemos a realidade do campeonato. Nossa campanha está fora do normal, acho que estamos muito bem se considerarmos o nível elevado que tem o NBB. É um campeonato muito difícil para todos os times. Não tem jogo fácil para ninguém.
MN: Ao que se deve esta campanha arrasadora no NBB até o momento? A constante manutenção da base ano a ano?
Guerrinha: Isso conta sim, mas outro ponto importante é termos ficado de fora da final do Campeonato Paulista. Se tivéssemos disputado a final do Estadual chegaríamos mais desgastados e talvez até um pouco relaxado no NBB, já que o relaxamento após a conquista de um título é algo normal. Tanto é que o Paulistano (campeão paulista) iniciou mal o NBB e agora que está começando a engrenar. Isso acontece com todo mundo. Ainda nos falta mais opção de rotação dentro de quadra, têm equipes com um plantel bem recheado, com bastante opção tática e técnica. Mas, nossos jogadores gostam do time e de defender a cidade de Mogi. Isso também é um diferencial a nosso favor.
MN: Que dificuldades espera encontrar na Liga das Américas e qual o objetivo nesta competição? Enxerga a possibilidade de vencer esses dois torneios?
Guerrinha: Sim, enxergo. Acho que temos grandes chances, mas tem outros times importantes nessa briga, como o Paulistano e São Lourenço (Argentina). Na Liga das Américas, quando se joga contra um time de outro país, fora de casa, se encontra uma arbitragem totalmente diferente, e isso traz dificuldades. A conquista desse título vai depender muito dos três jogos que vamos fazer fora de casa e, claro, da inspiração do nosso time. Vale relembrar o primeiro quadrangular da Liga Sul-Americana: o que o Shamell jogou no último tempo do segundo jogo, o que o Tyrone jogou nos três jogos e o próprio Jimmy, foi algo incrível. Eles tiveram um rendimento muito acima do esperado. Quando jogadores como esses conseguem jogar acima do limite, tudo pode acontecer.
MN: O que seria uma "tragédia" para a equipe nesta temporada em termos de resultado?
Guerrinha: Eu acho que ficar fora do G4 do NBB e ser eliminado no primeiro playoff da Liga das Américas. E isso são coisas que podem acontecer, pelo alto nível das duas competições.
MN: Disputar duas competições de forma simultânea certamente trará um desgaste maior para os atletas, tanto pela maratona de jogos quanto pelas viagens. Sendo assim, qual é o principal objetivo da equipe nesta temporada, o NBB ou a Liga das Américas?
Guerrinha: Os dois são prioridades. Mas sabemos que é difícil levar as duas competições no mesmo nível, então temos que priorizar primeiro a Liga das Américas, que tem um formato mais "fácil", mas sem perder muito o foco no NBB. Se nos concentrarmos mais na Liga das Américas neste primeiro momento, mesmo que tenhamos uma queda no NBB, teremos tempo para recuperar, por se tratar de um campeonato mais longo. No NBB você ainda pode recuperar lá na frente, nos playoffs, mesmo não se classificando bem na primeira fase.
MN: Saindo das quatro linhas, qual a importância dos projetos nas escolas municipais de Mogi promovidos pela equipe, onde jogadores, a comissão técnica e você ficam próximos dos alunos nas clínicas esportivas promovidas?
Guerrinha: Eu particularmente acho tão importante quanto o título do NBB. A conquista dentro de quadra fica marcada na história, os jogadores colocam no currículo, o torcedor vibra uma semana (e depois já quer ganhar de novo). Um trabalho desses, nas escolas, fica para a vida inteira de uma criança, que às vezes não teve a mesma oportunidade que nós tivemos. Eu vou pegar o Jimmy (jogador do Mogi/Helbor) como exemplo: ele veio de um projeto social de Joinville e hoje, profissionalmente, chegou até a seleção brasileira. Ele conseguiu se desvencilhar das armadilhas da vida, mesmo sem muitas oportunidades, graças a um projeto social esportivo, assim como fazemos com a garotada das escolas municipais de Mogi. Ele (Jimmy) é um retrato fiel de como projetos de socialização são importantes na vida do cidadão. Não sei se é porque eu já tenho vários títulos, mas, sinceramente acho que essas ações são mais importante ou tão importante quanto um titulo.
MN: Acredita que este projeto pode fortalecer o basquete da cidade e servir de incentivo às crianças?
Guerrinha: Com certeza, dei o exemplo do Jimmy aqui, e tem tantos outros. Participei de várias clínicas no Franca Basquete, era também uma prioridade nossa - minha, do Carlão e de outro sócio. Conseguimos ter mais de 3 mil atletas aprendendo basquete durante 20 anos, e muitos deles estão jogando no NBB. O próprio Edu, que está jogando no Vitória, que é de uma família pobre e veio de um projeto social; o Fernandinho, que é o atual assistente técnico do Helinho, dentre tantos outros. Muitos foram estudar fora, nas universidades americanas, voltaram e estão trabalhando em outros setores, fora do basquete. Ou seja, independentemente do aluno trilhar o caminho esportivo ou não, esses projetos sociais são um ganho para a vida toda, porque trazem o incentivo e dão força aos assistidos. E isso, considero que seja uma obrigação nossa, que trabalha com esporte profissional.
MN: O que você diria ao torcedor do Mogi/Helbor neste ano que se inicia?
Guerrinha: Eu acho que a torcida mogiana tem que se orgulhar muito do time, da mesma forma que o time tem que se orgulhar muito da torcida. Somos uma família, temos que estar junto no amor e na dor. E, devemos, sim, ficar muito tristes e chateados com uma derrota, ou com a eliminação de um campeonato. Mas temos que considerar também o esforço da equipe, dos jogadores e da própria diretoria, que conseguiu montar um time de alto nível e respeitado no Brasil todo. Às vezes olhamos muito só para o resultado em si, mas acho que devemos analisar o projeto como um todo e a importância deste time para a cidade de Mogi das Cruzes. Os jogadores, comissão técnica, diretoria, estão hoje defendendo a equipe, mas amanhã podem não estar mais. Mas, o projeto tem que perdurar, independentemente dos nomes que o defende. Mogi das Cruzes sem esse time ficaria mais triste, a cidade merece ter uma equipe competitiva, assim como o basquete merece ter uma torcida como a do Mogi/Helbor.