Varrer, lavar, encerar, tirar o pó e recolher o lixo. Ações simples, que fazem parte da rotina de muitas pessoas, em especial daquelas que atuam como profissionais de limpeza. Agora, imagine fazer tudo isso de forma impecável utilizando apenas um dos braços. Impossível? Nada disso. É o que mostra o auxiliar de limpeza Paulo Luiz da Silva, de 49 anos, que diariamente trabalha na manutenção do Terminal Central, em Mogi das Cruzes. Com muita habilidade e amor pelo que faz, ele contribui para que o espaço fique mais agradável para os usuários, que muitas vezes nem notam sua presença.
Nascido sem nenhuma deficiência, Silva precisou amputar o membro superior esquerdo na altura do cotovelo, aos 17 anos, após um acidente ocorrido quando ainda morava em Pernambuco. "No começo eu não aceitava, achava que minha vida tinha acabado. Quando se nasce com uma deficiência é mais fácil de se adaptar, porque sempre foi assim. Mas quando isso acontece do nada, ainda mais na juventude, você não tem nenhuma expectativa, acha que tudo está perdido", disse.
Devido a problemas pessoais, mudou-se para São Paulo um mês após a amputação. Longe da família, teve de aprender a lidar com as limitações na marra enquanto buscava meios para sobreviver. "Quando cheguei em Jundiaí comecei a trabalhar como ambulante, vendendo doces e sorvetes na rua. Sempre fui muito ativo, trabalhava cortando cana antes do acidente, então não conseguia ficar parado. Acho que foi isso que me fez não ficar em casa, como a maioria dos deficientes faz", alertou.
Sua trajetória na área da limpeza teve início em 1986, ainda em Jundiaí, em uma prestadora de serviços. "Todos os dias eu procurava emprego. Ouvi muitos 'não'. De tanto ir até uma agência, fiz amizade com um rapaz e ele me ofereceu um teste para limpar um banheiro. Quando ele voltou eu tinha limpado o banheiro e quase toda a praça em que ele ficava. Então fui contratado", recordou.
Em 2015, após separar-se da esposa com quem tem seis filhos, mudou-se para Mogi, onde conseguiu o atual emprego por meio do programa "Emprega Mogi". Apesar dos anos passados e da experiência adquirida, a maior dificuldade ainda persiste: o preconceito. "Eu levo uma vida normal, como qualquer outra pessoa. A única limitação é não ter a aceitação do público. O povo acha que deficiente é imprestável, que precisa ficar em casa. Então não se conformam em me ver trabalhando. Por isso só tenho a agradecer a empresa e todos que confiaram na minha capacidade".
Vídeo
E foi justamente a atitude das pessoas que motivou o chefe de divisão do "Emprega Mogi", Luís Carlos de Moraes, a divulgar o trabalho desenvolvido pelo auxiliar de limpeza.
Em um vídeo de quase dois minutos de duração, divulgado em seu perfil no Facebook, ele mostra Silva atuando no terminal. A publicação, criada na última segunda-feira, já havia superado 6 mil visualizações, três dias após ter sido divulgada. "Muitas pessoas que buscam vagas no programa não aceitam o fato de algumas serem destinadas exclusivamente aos deficientes, porque acham que eles não podem trabalhar. E eu uso o Paulo como exemplo, mostrando que mesmo com as limitações, ele é dedicado, faz com amor e trabalha até mais que outros profissionais sem deficiência", concluiu.