Mas que história é essa? É isso que Meno Del Picchia pensava quando ouvia os avós conversarem sobre um tal tio Dico, sapateiro respeitado, que um dia deixou a família na pequena Ipaussú (SP) e sumiu no mundo. A única informação que eles tinham era que Dico virara andarilho. Essa história nunca saiu da cabeça de Meno e é o tema central de Barriga de 7 Janta, terceiro disco do músico paulistano. Em 14 faixas inéditas, Meno fantasia o que aconteceu com Dico. Por que ele decidiu abandonar tudo, se tinha família, esposa, trabalho, uma vida? O que lhe passou ao cair na estrada?
Traduzindo todo este clima para o universo da canção, Meno elabora uma atmosfera sonora que remete à filmes cheios de solidão e poeira, como “Paris, Texas” e “Nebraska”. A partir de instrumentos de corda, especialmente violão e viola, apoiados em percussão e bateria, Meno e sua banda de músicos notáveis da cena paulistana – Marcelo Effori (bateria), Allen Alencar (guitarra) e Otavio Carvalho (teclados e programações), que o acompanham desde o disco anterior, o elogiado “Macaco Sem Pelo” (2013) – constroem uma espécie de “ópera rock caipira”. Faixa a faixa, o ouvinte é convidado a conhecer a infância de Dico, sua passagem para adolescência e seu encontro com Sabrina, a mulher de sua vida.
Em “Barriga de 7 Janta”, Meno se distancia do carimbó e das referências africanas que permeavam os discos anteriores, para mergulhar em um universo de cordas buscando o coração da música caipira, mais próximo ao gênero da moda de viola. Instrumentista de longa caminhada, Meno também descobre nesse disco arranjos crus e ruidosos, tecidos com letras fortemente imagéticas, ao lado dos silêncios da estrada.
Segundo Meno, o que mais lhe atraía na história de Dico eram as razões que o levaram a largar tudo, e que nunca foram compreendidas. “A escolha de Dico era uma busca por liberdade? Por aventura, inconformismo? Coragem, covardia? O disco tenta narrar porque o sapateiro Dico se transformou no andarilho Barriga de 7 Janta”.
O título do disco também é memória. A expressão foi escutada por Meno nas ruas de São Paulo e cruzou-se com a imaginação sobre Dico: “Barriga de 7 Janta fala de uma pessoa que é tão magra que parece que só jantou sete vezes na vida”. Se na história de Dico a solidão dá o tom, no disco, Meno se cercou de um verdadeiro time de músicos e amigos. São 10 participações especiais: em “Correnteza”, Romulo Fróes cantou sua primeira parceria com Meno; Saulo Duarte tocou guitarra e cantou “Jacaré”; Rodrigo Caçapa criou o arranjo de “Primo Raimundo”; e ainda se escuta Ricardo Herz, Lu Horta, Juliana Perdigão, Thiago França, Jacques Matias e Marcelo Cabral.
Nos diálogos com a poesia, aparecem as parcerias com os poetas arrudA e Heloiza Abdalla. Há também uma “participação” especialíssima, a de Menotti Del Picchia, poeta modernista e bisavô de Meno, que surge na faixa “Pigarço”, trecho de seu clássico poema Juca Mulato (1917) e que foi musicado por Meno. É como se o Barriga de 7 Janta de Meno encontrasse o Juca de seu bisavô na estrada, entre seus sofrimentos, ficções e realidades.
Contemplado pelo Prêmio ProAC de Gravação de disco, o Barriga de 7 Janta foi gravado no estúdio Submarino Fantástico, em São Paulo, de janeiro a abril de 2016. A produção musical foi realizada coletivamente por Meno, Otavio, Effori e Allen. A produção executiva é de Heloiza Abdalla.