Cidades
Publicada em 16/10/2020 - 22h51min

"povo de Deus"

Para antropólogo, igrejas são apoio para mais vulneráveis

Evangélicos serão maioria no país e estão onde os serviços do Estado não dão conta de atender a população

Foto: Reprodução

Spyer avalia que elite tem uma visão "estereotipada"
Em entrevista à Deutsche Welle Brasil, antropólogo Juliano Spyer aponta que elite brasileira tem uma visão "estereotipada e muito arrogante" sobre a realidade dos evangélicos, que podem superar número de católicos no país em 2032. "O Brasil vive o maior processo de transição religiosa do mundo, com sua população migrando de forma acelerada do catolicismo para o cristianismo evangélico. Se em 1970 os evangélicos representavam 5% dos brasileiros, hoje são cerca de um terço e, nesse ritmo, em 2032 serão a maioria", diz a matéria da DW.
Essa transformação tem impacto nas instituições e na vida das pessoas, especialmente dos mais pobres, mas é ainda pouco compreendida pela elite do país, afirma o antropólogo Juliano Spyer, autor do livro "Povo de Deus: Quem são os evangélicos e por que eles importam", que chega às livrarias nesta semana pela Geração Editorial, com apresentação de Caetano Veloso.
A ideia da obra surgiu quando Spyer morava numa vila de trabalhadores na periferia de Salvador (BA) para a pesquisa de campo de seu doutorado sobre uso das mídias sociais pelas classes baixas. Lá, fez amizade com famílias evangélicas, passou a frequentar cultos e percebeu o impacto prático que as relações construídas na igreja tinham na vida de pessoas vulneráveis e sem acesso a direitos e serviços públicos. "Essas igrejas produzem um serviço que o Estado não dá conta ou para os quais a sociedade brasileira não se mobiliza. (...) Há uma rede de ajuda mútua: quando o marido fica desempregado e se arruma emprego, o filho se envolve com drogas e encontra um lugar para ser tratado, o marido que batia na mulher encontra caminhos para negociar uma harmonia em casa. É um estado de bem-estar social informal", diz.
Spyer afirma que a elite brasileira tem uma visão "estereotipada, pouco esclarecida e muito arrogante" sobre os evangélicos, que se reflete também em parte da classe política, inclusive na centro-esquerda. Enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro, que teve entre os evangélicos sua maior vantagem eleitoral em 2018, adota uma estratégia "oportunista" de aproximação desse grupo, sinalizando que "se as outras pessoas não se interessam por eles, ele se interessa", diz o antropólogo.
A antropologia do cristianismo, segundo Spyer, é um dos principais temas da antropologia contemporânea. "O Brasil pobre, principalmente na área urbana, é predominantemente evangélico. Não existe no mundo uma transição religiosa acontecendo como a do nosso país, que está se tornando um dos maiores países protestantes do mundo".
Em 1970 havia 5% de evangélicos, incluindo protestantes. Em 2000 eram 22%, e em 2019, um terço da população acima de 16 anos. Os estatísticos preveem que em 2032 o cristianismo evangélico se tornará a religião predominante no país. A motivação do livro de Spyer "é falar para as pessoas que existe muito mais complexidade e valores a serem levados em conta em relação a esse fenômeno."

Curtas

Summit de Encorajamento
No próximo sábado (31), a partir das 9h acontece o Summit de Encorajamento, evento simultâneo em milhares de igrejas no mundo. O mesmo será transmitido online na igreja Caminho da Vida em Mogi das Cruzes. Neste dia, durante o intervalo, para os que desejarem será servido almoço por R$ 20,00 (churrasco, arroz, farofa e maionese para os que fizerem o pedido antecipado até dia 28). Dessa forma quem estiver acompanhando não precisará voltar para casa e celebrarão juntos.
Facebook suspende página de ministério
O Facebook removeu a página de um ministério cristão interdenominacional que ajuda as pessoas que lutam contra atrações sexuais indesejadas e confusão de gênero. A Restored Hope Network disse que sua página no Facebook foi removida sem aviso ou explicação pelo gigante da mídia social. A diretora executiva da organização, Anne Paul, disse que a suspensão foi um “exemplo assustador de discriminação de ponto de vista”. “O Facebook está decidindo que eles têm autoridade para silenciar as histórias daqueles de nós cujas vidas mudaram”, disse ela. “A ação desdenhosa deles – cancelar nossa página como se ela nunca tivesse existido, deixando uma vaga mensagem ‘o link pode estar quebrado’ em seu lugar – é vergonhosa. “Nem mesmo estender-nos a cortesia de uma notificação, uma chance de oferecer nosso lado da história tão politizada, é injusto.” Paulk acredita que a suspensão é parte de uma campanha mais ampla das plataformas de mídia social para censurar organizações que ajudam pessoas com atração indesejada pelo mesmo sexo.
JF vai decidir sobre véu de freiras
Um grupo de freiras buscou o Poder Judiciário com uma demanda peculiar: elas desejam usar o hábito religioso (véu) nas fotografias utilizadas na Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Após verem o processo ser extinto em primeiro grau sem análise do mérito, elas apelaram da decisão e ganharam o direito de ter sua causa analisada pela Justiça Federal. A Congregação das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, que atua na assistência a doentes e idosos vulneráveis, apresentou a ação em janeiro de 2019, pedindo o reconhecimento incidental da inconstitucionalidade da Portaria nº 1.515/2018 do Denatran, que proíbe o uso de “chapéus, bonés e outros” na foto do documento de motorista. Em primeira instância, não analisando a questão do uso de hábito religioso nas fotos de CNH, a Justiça Federal extinguiu a ação por compreender que o pedido é de interesse individual das irmãs. Assim sendo, concluiu que a associação não poderia atuar como parte autora no caso.
Candidatos líderes religiosos
O portal Metrópoles fez um levantamento e constatou, a partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), candidatos associados às palavras pastor, padre, bispo, reverendo, apóstolo, pai e mãe de santo. Pastores (1.012) e padres (1.007) são a maioria entre os que se candidataram em 2020. Neste pleito, aspirantes a cargos públicos que ocupam funções religiosas devem estar atentos para uma novidade que vem movimentando a Justiça Eleitoral neste ano: o abuso de poder religioso. De acordo com especialistas ouvidos pela reportagem, apesar de a aplicação estar vetada nestas eleições, igrejas e religiosos não estão livres de responder por eventuais excessos cometidos no âmbito político e econômico. Em ação que julgou a cassação da vereadora Pastora Valdirene Tavares, de Luziânia, entorno do Distrito Federal, o TSE sustou a decisão do TRE que retirou o mandato da pastora. Os ministros da corte, entretanto, decidiram analisar a tese de abuso de poder religioso para aplicação em outros casos, sem fixar jurisprudência sobre o assunto. Durante o julgamento, que durou três sessões, o relator da matéria, Edson Fachin, entendeu que é necessário impor limites às “atividades eclesiásticas” para proteger a liberdade do voto e a legitimidade do processo eleitoral.
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