Opinião
Publicada em 15/09/2020 - 00h04min

Heródoto Barbeiro

Jornalista inimigo

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O jornalista é inimigo declarado do presidente. Nem mesmo o fato dele ter sido eleito por 48% dos votos amainou os ataques diários na mídia da capital da República. O embate inicial se dá em torno de duas visões para a economia nacional. O presidente defende uma agenda nacionalista, com uma forte participação do Estado na economia. A oposição quer uma agenda liberal com amplas possibilidades para que a burguesia brasileira desenvolva iniciativas em todos os setores.
Não há dia que o jornalista não publique duras críticas ao governo, aos ministros e tudo o que possa fortalecer o presidente. O nível de tensão aumenta quando o centro dos debates chega à corrupção, um mal que o Brasil não consegue se libertar. Assim, diz o jornalista, há propina nas obras que são destinadas aos aliados de todos os matizes. Os artigos nos jornais, as crônicas, os editoriais diários contra o governo tem imediata repercussão no Congresso Nacional onde a oposição tem maioria de deputados e senadores.
O foco principal contra o presidente é a imprensa. Aos poucos a população adere à manifestações e participa de atos como a marcha das panelas vazias. O jornalista é inimigo declarado do chefe do Executivo. Há contra ele ameaças de morte. A liberdade de imprensa corre risco uma vez que em passado não tão distante havia censura nos veículos de comunicação. Ou mesmo mortes de jornalistas. Um deles sofre um atentado na capital, escapa com um ferimento no pé, mas o seu segurança, um major da Aeronáutica, morre. Carlos Lacerda é guindado a principal oponente de Getúlio Vargas. O episódio gera a abertura de um inquérito policial militar para apurar o responsável pelo atentado. A mídia abre fogo contra Vargas e acusa um dos seus seguranças, Gregório Fortunato, de ser o mandante do crime. Há uma atmosfera de deposição do presidente, semelhante a 1945, quando foi deposto pelo exército. Gregório confessa o crime. Lacerda e seus seguidores aumentam a pressão na mídia. Vargas tem duas alternativas: ou a renúncia ou o suicídio. Escolheu a segunda.
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