Editorial
Publicada em 12/08/2020 - 02h19min

Vacina concorrida

Ao anunciar ontem que seu país, a Rússia, foi o primeiro a desenvolver e registrar uma vacina contra o coronavírus, o presidente Vladimir Putin abrir uma discussão que ultrapassa, de longe, a questão da saúde na luta contra a Covid-19. De imediato, o anúncio exigiu um pronunciamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), órgão superior mundial que deve ser respeitado na tomada de decisões sobre a questão.
A OMS alega que ainda não há comprovação científica sobre a Sputnik V, como foi batizada a vacina russa, alusão ao primeiro satélite orbital lançado pela antiga União Soviética. Antes de ser oficialmente aceito, o medicamento precisa cumprir todos os protocolos internacionais para comprovação de eficácia e de reduzidos efeitos colaterais, o que não se consegue em menos de 18 meses de testes, incluindo as etapas de aplicação em humanos.
A precipitação no anúncio de Putin colocou em dúvida a credibilidade da vacina. Segundo autoridades mundiais, os pesquisadores russos usaram testes militares, procedimentos clínicos acelerados e experimentações muito rápidas, que não qualificam o imunizante e nem lhe dão a devida comprovação científica. Há a acusação de que a pressão exercida pelo governo pela vantagem no desenvolvimento da vacina tenha abreviado etapas fundamentais no estudo.
A corrida internacional pela autoria de um medicamento capaz de atenuar os males da Covid-19 tem extrapolado as questões sanitárias. Estados Unidos e China disputam essa hegemonia, mas, ao menos, estão respeitando todas as etapas de desenvolvimento. Segundo a OMS, hoje são mais de 150 estudos realizados no mundo inteiro, mas menos de uma dezena se encontra em estágio avançado.
No Brasil, a concorrência pela parceria de um imunizante está entre o governo de São Paulo, por meio de um acordo nos testes da chinesa Sinovac, desenvolvida pelo Instituto Butantan, e a do laboratório AstraZeneca, em conjunto com a Universidade de Oxford, apoiada pelo governo federal. Agora, o novo produto de origem russa tem a promessa de acordo feita pelo governo do Paraná. A disputa por aqui sobre a vacina contra o coronavírus também anda acirrada.
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