Opinião
Publicada em 01/08/2020 - 19h11min

Delírio ou estratégia?

Ao desembarcar do avião presidencial em Bagé (RS), na última sexta-feira, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se aproximou de apoiadores e exibiu uma caixa de medicamentos. Em um primeiro momento, as imagens não eram claras, não revelando de qual "poção" se tratava. Entretanto, os mais interessados em política nacional já desconfiavam: mais uma vez, uma propaganda da cloroquina.
Não é a primeira vez que isso ocorre. No último dia 19, o defensor ferrenho do uso da medicação apresentou uma caixa do produto a seus apoiadores, que se aglomeravam em frente do Palácio da Alvorada. Dias depois, o presidente foi fotografado exibindo uma caixa de cloroquina a uma ema nas dependências do Palácio.
A insistência na utilização deste remédio - ainda sem comprovação científica de eficácia para o tratamento da Covid-19 - pode ser encarada de alguns prismas. Politicamente, a defesa seria uma das principais armas utilizadas para a campanha presidencial de 2022. Ser entusiasta da utilização de um produto antes mesmo de sua popularidade, aos olhos da grande massa, pode ser um recado ao seu público, majoritariamente descrente do poder de devastação do coronavírus, que ele sempre apresentou uma solução, mas que, devido à perseguição que sofre - como imagina o presidente - não teve credibilidade.
O aspecto financeiro também chama atenção. Segundo o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), o consumo de cloroquina pelos brasileiros cresceu 358% nos últimos meses. No ápice da pandemia, o laboratório Aspen, por exemplo, triplicou a produção de Reuquinol, à base da substância. O dono da indústria é o empresário Renato Spallicci, defensor fervoroso do presidente. Outros empresários bolsonaristas também estão aumentando seus rendimentos com a popularidade do medicamento, o que pode significar apoio direto de um forte setor da economia nacional.
Tentar entender o delírio de Bolsonaro com o medicamento "milagroso" é equivocado, mas o exercício é necessário, devido à insistência dessa estratégia do chefe do Executivo federal.
Compartilhe

Mais vistos