Editorial
Publicada em 18/05/2020 - 22h29min

Dirceu Sousa

Sem alternativa

O transporte coletivo na cidade de São Paulo vive um drama nesta quarentena de coronavírus. Pagando por erros na falta de planejamento há décadas, a infraestrutura viária está muito distante dos padrões internacionais de locomoção das pessoas. Sem alternativas, a população é obrigada a conviver com um transporte coletivo precário, que tem pouca oferta e vive um caos nos momentos de pico. A Prefeitura paulistana tentou de todas as maneiras aumentar os índices de isolamento social com medidas atreladas à redução do número de veículos particulares nas ruas, não deu certo.
Primeiro, implantou um sistema de bloqueio nos principais cruzamentos, que, ineficaz, durou somente dois dias. Na semana passada, experimentou o rodízio radical, com os carros circulando em dias alternados de acordo com o final da placa, par e ímpar. Também não funcionou. As taxas de isolamento não passaram de 50%, abaixo da expectativa de 60% do governo estadual. Ontem, se viu obrigada a retomar o rodízio tradicional, com a proibição apenas para os horários de maior movimento, dentro do chamado centro expandido e respeitando o calendário de restrição apenas uma vez por semana.
O problema maior é que qualquer proposta leva, de imediato, as pessoas a recorrerem ao transporte coletivo e é aí que mora o perigo. De acordo com matéria publicada no domingo passado pelo grupo Mogi News, os usuários temem maior exposição ao vírus dentro dos ônibus e trens, apesar de todas as precauções tomadas, tanto pelo lado das empresas, com a higienização constante dos veículos e estações, quanto dos passageiros, munidos de máscaras e álcool em gel. Como bem definiu a empregada doméstica Ana Lia de Andrade, de 50 anos, ouvida pela reportagem. "Não tem como saber se o cara que está do meu lado está ou não com os sintomas", disse.
Esse é o mesmo sentimento vivido por milhares de pessoas que utilizam diariamente o transporte público. Em termos de pandemia, são elementos praticamente antagônicos. Tirar carros de circulação significa colocar as pessoas nos coletivos. Para os usuários, não há alternativa. Trabalhar correndo todos os riscos de contaminação ou ficar em casa sem o sustento da família.
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