Editorial
Publicada em 14/02/2020 - 01h41min

Eterno recomeço

Dona Claudia Daguimar, de 33 anos, passou os últimos dias em um abrigo improvisado pela Prefeitura de Itaquaquecetuba no Centro de Convivência da Melhor Idade. Ao lado do marido, sogra e sete filhos, com idades entre 3 e 15 anos, ela é uma das 223 pessoas que ficaram desalojadas na cidade por causa das chuvas intensas que caíram no início da semana na região. Moradora da Vila Maria Augusta em área ribeirinha ao rio Tietê, a condição de abrigada não é novidade para ela: em 14 anos residindo no local, esta é a quarta vez que sua família precisa ser resgatada de um alagamento. Em alguns dias, quando o nível do rio voltar ao normal, Claudia deve retornar à sua casa para reiniciar a vida. É o recomeço. É eterno.
Assim como a moradora, muitas outras pessoas vivem drama semelhante todo início de ano quando o período de chuvas chega. Basta um aguaceiro mais forte e tudo acontece novamente. O nível do rio sobe, invade as casas e leva não apenas móveis, aparelhos domésticos e roupas, mas os sonhos de ter uma vida digna junto à família. O mais desanimador é que se sabe que as enchentes vão ocorrer, pois os fatores que as permitem não são eliminados, como o desassoreamento dos rios e a limpeza preventiva de bueiros. Com a permissão de Gabriel Garcia Marques para um trocadilho infame, é a crônica de um alagamento anunciado.
Enquanto nenhuma atitude mais permanente for adotada, as cheias se repetirão, e com elas todas as consequências ruins de desalojados, abrigos improvisados e pedidos de socorro aos órgãos superiores. Contando com os bons samaritanos, a sensibilidade de pessoas solidárias nas causas mais dramáticas serve como paliativo. O trabalho para resolver o problema em definitivo requer um planejamento sério para se evitar construções em áreas de risco, já conhecidas, além da fiscalização rigorosa que impeça a ocupação dos espaços. Neste contexto, entra a questão social: muitas pessoas não têm condições de comprar um terreno regular para construir a moradia e os programas de habitação não são abrangentes para toda a população. O problema é bem mais sério do que parece.
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