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Publicada em 13/02/2020 - 02h10min

Paulo Passos

Urubu

No ano que se passou as láureas do esporte foram dirigidas ao Flamengo. Saindo de dívida incontável, "deu a volta por cima", e por meio de investimentos, que alguns julgaram excessivos, conquistou os títulos que disputou, com larga margem em relação aos times nacionais.
Traduzindo com as vitórias a certeza de que o planejamento, quando feito por especialistas, traz frutos, deveria servir de exemplo a outras administrações. Mas, embora as exaltações, há que se olhar criticamente, por outro lado, aquele que a duras penas tenta se esconder.
No garimpo de pedras toscas, que, depois de lapidadas, rendam satisfações e fama, seus "olheiros" saem por aí na caça de crianças talentosas, donas do dom inato no jogo da bola. Levados aos treinamentos, os moleques - geralmente nascidos em berços pobres -, sonham com status de semideuses reverenciados por torcida fanática, veem-se desfilando em arenas internacionais, onde o dinheiro jorra como maná prometido.
Mal sabem que, para eles, enquanto não significarem valores e lucros, o clube não reservou política alguma; como se fossem objetos descartáveis, atira-os a fétidos e horrendos containers, desses reservados aos transportes de "coisas"; não dispensa, sequer, tratamento digno de ser humano. Natural, portanto, que estejam expostos, nesse mísero viver, às catástrofes que se mostram propícias a acontecer. A mais marcante delas, talvez, ocorrida em 8 de fevereiro de 2019, quando dez rapazotes faleceram, após incêndio tomar conta de seus "alojamentos".
Revivido o caso, em CPI a respeito do Flamengo - cujos líderes da época, acovardados, não compareceram ao chamamento - esquivando-se de culpa, chega a atribuí-la aos meninos eufóricos da ocasião.
Cinco garotos que, com mais sorte, simplesmente se feriram - nos corpos, eis que as almas se foram com os colegas -, em demonstração explícita de hipocrisia, foram dispensados no mês passado, após exigente "avaliação técnica".
Endeusado, e, ao mesmo tempo, sórdido em seus porões, assim caminha o "campeão". Campeão de quê?
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