Opinião
Publicada em 12/02/2020 - 04h05min

Raul Rodrigues

Sob a sina de criar

Não existe atividade humana da qual se possa excluir a intervenção intelectual. É por meio do intelecto que o homem toma consciência de si e da realidade que o envolve. Assim, como não se pode separar a citá, a cidade, e todos os seus desdobramentos como grupo ou comunidade, do que o humano é, em toda sua abrangência.
Numa dessas noites de primaveril enlevo, procurei entrar em mim mesmo. Investiguei o motivo porque me leva a criar; a fazer de meu dizer, meu sonhar; examinei-me; estendi minhas raízes pelos recantos mais profundos da alma, toda ela bafejada pela sina do querer.
Perguntei a mim mesmo na hora mais tranquila dessa noite, de varonil insônia: Sou mesmo forçado a escrever? Escavei dentro de mim mesmo a resposta que a alma, ciente do desenlace, esperava. Ao se revelar afirmativa, pude contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construí a vida de acordo com a necessidade. Agora vou viver como se meu tempo ao criar fosse dedicado. Quero me recolher, sob a prece que o criar ordena, retirar-me das ocupações efêmeras, que só rendem dividendos se despojados de toscas rimas.
Assim, esta vida não é a via serena em que me vês montado: sou uma árvore ante meu madrigal cenário. Não sou senão, uma de minhas várias bocas, na arte de ter o que dizer. Essa, dentre tantas, que pela tagarelice, seria a primeira a se fechar. Ao ser a pausa entre duas notas musicais, a do criar e a do dizer, que a muito custo se afinam, porque a da criação quer ter sempre a voz mais alta. Mas o que se há de fazer, com todas vibrando em heterodoxa pausa: reconciliarem-se? Para que seja lindo seu cântico: da árvore, as folhas caem, como se do alto caíssem, murchas, dos jardins do céu. Caem como se fossem gestos de providencial renúncia. E a terra, só, nesta noite de céu anil, cai dentre os astros na amplidão vazia. Caímos todos. Cai esta mão, que sem a outra, mata o gesto do perdão. Em redor: cair é a lei geral, sob gravidade normal. E a terna mão de Alguém colhe, afinal, para que nada se perca não, todas as Coisas que caindo vão!
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