Polícia
Publicada em 07/09/2019 - 19h02min

Luciana Garcia: especialista em casos de autismo

Psicóloga conta que jamais imaginou que trabalharia diretamente nesta área, mas, quando a oportunidade surgiu, há sete anos, se apaixonou

A pergunta foi lançada: "Em qual dia caiu 8 de abril de 1984?". O menino de origem japonesa, 9 anos de idade, olhos rápidos e fala meio afobada - ainda ofegante por conta atividades e brincadeira com as psicólogas - mandou a resposta em cinco segundos: "Domingo", cravou. E logo correu para brincar com umas bolinhas coloridas. A resposta estava certa.
Este garoto se chama André. Ele é um dos 80 pacientes da Clínica Sinapses, em Mogi das Cruzes. Tem uma a habilidade incomum: basta informar a ele uma data (dia, mês e ano) e ele responde, de imediato, em qual dia da semana caiu. Não consulta calendário, não faz cálculos, apenas pensa. Como ele faz isso? Trata-se de um mistério, talvez o mesmo que ainda envolva a sua condição: autista.
"Esta habilidade dele pode, sim, estar relacionada ao autismo, mas nós não temos, ainda, como afirmar isso. Há outra hipótese de que ele tenha a síndrome de Savant (distúrbio psíquico com o qual a pessoa possui uma grande habilidade intelectual aliada a um déficit de inteligência), mas ainda não foi diagnosticada. O autismo, aliás, continua sendo um mistério porque não se tem a ideia da causa. Já se sabe que é genético e que atualmente existem vários genes sendo estudados e que podem ter ligação", explica a diretora-clínica da Sinapses, a psicóloga, psicopedagoga e neuropsicóloga, Luciana Garcia Lima, de 43 anos. Os olhos dela brilhavam a cada brincadeira do garoto André naquele espaço repleto de estímulos sensoriais, cama elástica e bolas coloridas, utilizados justamente para estimular os pacientes.
A clínica é uma das mais completas do Estado de São Paulo em tratamento para autistas, sendo, inclusive, referência para neurologistas conceituados em autismo e que prescrevem a Terapia ABA e o Método Denver - reconhecidos como os mais eficazes para o transtorno. Um espaço erguido justamente do jeito que a psicóloga idealizou, após ter iniciado um estudo aprofundado em autismo: "Uma sala dá conta para atender, mas eu não queria só atender. Para prestar uma assistência a um autista com tudo o que ele precisa, eu visualizei um espaço com banheiro, cozinha, quintal e salas de descanso. Na cozinha, por exemplo, realizamos atendimento terapêutico relacionado a questões de autonomia, coordenação e adaptação. Daí, comecei a correr atrás da minha clínica e fiz do jeito que eu queria. Este imóvel era a casa onde meu marido morou quando era solteiro. Só sobrou a churrasqueira porque a casa foi totalmente readaptada", conta.
A clínica, que fica no bairro Mogi Moderno, tem brinquedoteca, horta, uma cozinha equipada, além de uma ampla área de recreação ao ar livre, onde são realizadas atividades como escalada, pintura, exercícios físicos, pet-terapia, entre outros.
'Eles apareceram'
O "encontro" com o mundo do autismo ocorreu de forma inesperada. Luciana conta que jamais imaginou que um dia iria trabalhar diretamente na reabilitação de crianças autistas, no entanto, como ela mesmo define: "eles (autistas) apareceram na minha vida". Segundo a psicóloga, tudo começou há cerca de sete anos, quando um casal, pais de uma criança autista, a procurou. "Eles queriam saber se a criança tinha ou não autismo. E eu não sabia quase nada sobre o assunto. Daí eu fui correr atrás, busquei supervisão, estudei e consegui avaliar a criança", detalha.
Pouco tempo depois, surgiu uma outra criança nas mesmas condições. "Eu já sabia avaliar e dei meu parecer. Neste caso, eu não o encaminhei, ou seja, eu mesma o tratei e me apaixonei. Fui me especializar ainda mais. Foram estas duas crianças que fizeram eu me apaixonar. Visitei clínicas especializadas nos Estados Unidos e dei início nesta linda jornada", explica.
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