Editorial
Publicada em 05/09/2019 - 22h37min

Douglas Pires

É muita maldade

Tem de ser muito incivilizado e perverso para despir, amordaçar, amarrar mãos e pés e chicotear um ser humano nestas condições por cerca de 40 minutos, em uma sala fechada. Pior: gravar a sessão de tortura e publicar nas redes sociais. O torturado e humilhado era um jovem de 17 anos (adolescente em situação de rua) que, segundo consta, teria furtado um chocolate em um supermercado na zona sul de São Paulo. Os torturadores são dois seguranças do estabelecimento.
O assunto tomou conta das redes sociais nos últimos dias, principalmente entre os internautas do Alto Tietê. Boa parte dos usuários da rede mundial de computadores, ainda bem, repudia o ato repugnante dos dois vigilantes. Existe também, é claro, alguns cultivadores de ódio que, sem constrangimento algum, apoiam a conduta nefasta.
Promover justiça com as próprias mãos não é justiça. É associar-se ao crime e transgredir as leis. É atolar-se no limbo das atrocidades. O caso nos faz lembrar do músico e tatuador que marcou na testa de um jovem suspeito de furto a inscrição "Ladrão vacilão". Na ocasião, em 2017, o torturador foi preso. No ano seguinte, conseguiu deixar a prisão para responder pelo crime em liberdade.
No caso mais recente, os seguranças foram afastados de suas funções e o delegado da 80ª DP na Vila Joaniza (área dos fatos), Pedro Luis de Sousa, pediu a prisão cautelar dos dois agressores. O dono do estabelecimento alegou não compactuar com a tortura e ficou indignado ao saber do ocorrido.
Não se trata de fazer aqui uma defesa ao jovem suspeito de surrupiar o chocolate na mercearia. Aliás, se realmente for provado que houve o crime de furto (artigo 155 do Código Penal Brasileiro), o suspeito passa à condição de menor infrator e, assim, receberá a medida socioeducativa adequada. Espera-se ainda que os dois foras da lei recebam uma pena oportuna. Sabemos que este não será o último caso de tortura no país, mas uma coisa é certa: daqui para frente, quem pegar em um chicote, talvez, pense duas ou três vezes antes de açoitar alguém em nome desta "justiça" que só eles (torturadores) enxergam.
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