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Publicada em 10/07/2019 - 23h09min

Paulo Passos

Demagogia

Tenho escrito sobre uma população que, como fantasma, sobrevive no anonimato. Sem vez nem voz, não se traz à luz suas histórias sofridas, seus dramas pessoais, suas necessidades primárias. Bastam, no entanto, dias de frios mais intensos, para que seus corpos esquálidos, aliados à falta de tudo, por vezes sucumbam nas madrugadas, em uma calçada qualquer, debaixo de marquise que só aplacou o sereno.
Nesses instantes, a imprensa se torna ávida. As manchetes dos jornais não só noticiam os óbitos como vão em busca de culpados. À falta de notícias, as rádios e televisões se põem em uma espécie de vigília em favor do menos favorecido, iniciam campanha intensa e repetitiva. Óbvio que, passados o gélido clima, a romaria cessa imediatamente, dando a assunto mais relevante. E, assim se vai, até o ano seguinte, até que nova desgraça, antecipadamente anunciada, venha a acontecer.
Demagogia barata só tem valor quando, rompendo os véus que as encobrem, dão notícias sobre almas caridosas que, despidas de vaidades, noites a fio, saem pelas ruas com o intuito único de, na medida do possível, dar lenitivo à dor de seu semelhante.
Distribuem refeições advindas de produtos doados, e cozidas com esmero; presenteiam com cobertores, ou aquilo que tenham às mãos para confortar; dão, principalmente, um pouco de prosa, o dom da presença, aos sempre rejeitados.
Entre tantos, quero me referir ao padre Julio - que não sei se chamo de Sir Lancelotti, o Primeiro Cavaleiro; de santo; ou de Quixote pelo combate ferrenho aos moinhos - que, espalha, como poucos, as lições do Cristo.
É dele, com autoridade e conhecimento, a lástima de que as igrejas promovem verdadeiro apartheid contra o homem da mais baixa classe, por vezes impedindo o seu acesso às celebrações.
Quão bom seria se a igreja, sensível ao drama, nas noites frias se abrisse para a população carente, e derivasse um pouco dos lucros com as imponentes festas para a aquisição do necessário para abrigá-la como devido.
Enquanto isso, frequentem as colunas sociais, mas deixem de hipocrisia.
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