Opinião
Publicada em 14/05/2019 - 22h50min

Raul Rodrigues

Educar-se?

Escrever é a maneira adequada de ficar nú em público. Escrever para educar é ficar nú e à luz de refletores! Educar: como mostrar a vida a quem ainda não a viu! O bom educador é aquele que se dirige ao aluno: "Veja!" E, ao falar, aponta. O aluno olha na direção apontada e vê o que nunca viu. Seu mundo se expande. Ele fica mais rico interiormente. E, ficando mais rico interiormente, pode sentir mais alegria e a partir daí, doar mais alegria, uma das razões mais importantes, pela qual todos devem viver.
Apesar de ser engenheiro, li livros sobre sociologia, filosofia, psicologia da educação, mas, por mais que me esforce, não consigo me lembrar de qualquer referência à educação pelo olhar ou à importância do olhar na educação, em qualquer deles.
A primeira tarefa da educação válida é ensinar a ver. Por meio dos olhos, os alunos tomam contato com a beleza e o fascínio do mundo. Olhos que têm de ser educados para a alegria aumentar. Educação sob dois portos: o da sensibilidade e o das habilidades.
Ao se ensinar uma criança sente-se que ela tem os olhos encantados. Olhos dotados daquela qualidade que, para os gregos, era o início do pensamento: a capacidade de assombro diante do que é banal! Para ela, tudo é espantoso: um gato, um mosquito, uma maçã na fruteira, o vôo dos sabiás, o pulo dos gafanhotos, uma pipa no céu. Eruditos não dão importância: não vêem! Na escola aprendi complicadas estruturas que tornam o latim clássico a língua perfeita, para Nietzsche, em desuso, esqueci quase tudo. Mas nenhum professor jamais chamou a minha atenção para a beleza das pinhas que caiam do pinheiro no pátio da escola, ou para o curioso de toda a sua simetria.
Palavras só se justificam se ajudam a ver melhor o mundo. Ao melhorar os olhos lê-se com reflexão. E com o abrir dos olhos, as janelas do corpo se abrem, e o mundo é projetado para dentro da gente. Quem não muda o modo de se ver e sentir, não se torna criança, e jamais será sábio!
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