Opinião
Publicada em 15/03/2019 - 00h34min

O dia seguinte

Os traumas deixados pela tragédia ocorrida na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, na quarta-feira, com a morte de cinco estudantes, duas funcionárias e o tio de um dos dois jovens que invadiram a instituição para atacar quem estivesse pela frente e depois se mataram, entrando para as duras estatísticas como uma das piores já registradas no Brasil, estarão eternamente presentes em muitas pessoas envolvidas, direta e indiretamente, com o fato. Mesmo quem atua com este tipo de situação, como policiais e Imprensa, que, por força da profissão, são obrigados a lidar com cenas dramáticas e a emocionante reação de parentes, o dia seguinte é um dos mais difíceis.
Depois do choque, as pessoas entram numa espécie de estado letárgico e passam a agir por instinto no desempenho das tarefas cotidianas. Entretanto, o subconsciente faz questão de trazer à tona as lembranças e coloca uma série de questionamentos a respeito do ocorrido. No calor dos fatos, muitas passam a criticar governos, políticas públicas, falta de segurança, associam a games incentivadores da violência, estrutura familiar precária e a outros fatores alheios, mas se esquecem de analisar o centro da questão: o ser humano e o sentido da sua própria vida. Talvez a maior dificuldade da ciência hoje seja avaliar os motivos psíquicos que conduzem as pessoas a agirem, seja pelo lado da bondade e generosidade, mas, mais obscuro ainda, pelas sombras da maldade.
Fatos como o massacre em Suzano devem servir de ícones balizadores para a construção de novos paradigmas. Tão importante quanto a presença de segurança e de câmeras de monitoramento nas escolas, por exemplo, como componentes inibidores de ações mais violentas, é urgente a necessidade de ampliar o atendimento psicológico dentro das unidades, com a atuação de profissionais capazes de traçar um perfil dos adolescentes e identificar estudantes com distúrbios emocionais. A melhor maneira de se evitar os traumas do dia seguinte é antecipar o processo que desencadeia neles. Antes de abrir os braços para se solidarizar com familiares em luto, devemos pensar em acolher uma geração que está gritando em silêncio.
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