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Publicada em 23/01/2018 - 22h17min

Dirceu do Valle e Fabio Simas

Os novos patíbulos

Desde tempos imemoriais que a mentira anda se esgueirando à sombra da verdade. Da mitológica criação de Aleteia por Hefesto, passando pelas propagandas oficiais da Alemanha Nazista e da Guerra Fria ao fake news dos dias atuais, pode-se citar uma infinidade de exemplos de como ora a verdade ora a mentira foi utilizada para manipular pessoas.
As coisas chegaram a tal ponto que hoje mais do que nunca vale o aforismo de Nietzsche, segundo o qual a verdade é uma multidão móvel de metonímias e antropomorfismos, uma ilusão que se esqueceu que é metáfora. Como disse o filósofo alemão, não existem fatos, mas interpretações, o que levou o mundo a ser uma grande fábula, de modo que as palavras perderam o significado; servem para seduzir ou persuadir, para ofender ou se desculpar, porém, não servem mais para enfrentar e se entender a realidade. 
O processo criminal do ex-presidente Lula encontra-se inserido nesse "saco de gatos". A acusação diz uma coisa e a defesa outra, o que é absolutamente normal, faz parte da dialética processual. Ocorre que no meio disso tudo existem as redes sociais e, com isso, essa nova modalidade de tribunal de exceção, onde todos têm opinião sobre tudo, mesmo - e quase sempre - sem saberem de nada. Some-se a isso alguns jornalistas que, sem constrangimento, se colocam como acusadores ou juízes, incutindo desejos e medos conforme suas ideologias e/ou os interesses das empresas de comunicação em que trabalham, o que é lamentável. 
O resultado é a opinião pública desorientada, intoxicada por "meias verdades", com a triste impressão de que o processo foi criado para se esconder a verdade ou de que os juízes se movem por sentimentos políticos, pretendendo, assim, desacreditar a Justiça. Não se trata aqui de um libelo tampouco um oblíquo exercício de defesa do ex-presidente Lula. Trata-se de instar a consciência das pessoas no sentido que o debate público deve ser minimamente coerente, com lealdade de ideias e sem conclusões tiradas da marola dos ventos e dos oportunismos. A democracia exige consciência e esclarecimento.
Processo, para o bem da Justiça e da sociedade, deve ser discutido primeiro dentro do capeado dos autos, sendo certo que qualquer tentativa em levar a discussão a palco distinto, retumba deletéria ao esclarecimento da verdade e à prática do justo. Presunção de inocência, conquista cara na atual quadra civilizatória, vale para todos. Inadmissível transformar espaços de comunicação tradicionais e virtuais nos patíbulos e pelourinho desses tempos bicudos em que vivemos.
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